Minas Gerais já tem 118 surtos de conjuntivite em 41 municípios. A informação é da Secretaria de Estado de Saúde (SES). O cenário se deve ao aumento repentino do número de casos, mas o total de pessoas que ficaram doentes é impreciso, já que a notificação não é compulsória.

Conforme a SES, o quadro é próprio do verão, uma estação muito quente e úmida. No entanto, especialistas em saúde acreditam que a situação é atípica e demanda atenção especial. Uma hipótese é a de que as infecções possam ter relação ao vírus de outra doença, como a gripe.

Uma cidade pode ter mais de um surto, como acontece atualmente em Belo Horizonte. O quadro foi registrado nas regiões Norte, Leste e Oeste. “Não temos um acompanhamento sistemático da conjuntivite. Então, os casos acabam sendo subnotificados”, explica o infectologista Alexandre Moura, que é referência técnica da Gerência de Assistência da Secretaria Municipal de Saúde.

Nesta semana, a procura por socorro tem sido intensa em unidades de saúde públicas e privadas da capital. Só na Clínica de Olhos da Santa Casa de BH, 300 pacientes foram atendidos nos últimos três dias. O hospital também recebe moradores da região metropolitana. 

A Zona da Mata é a região mineira com maior número de municípios enfrentando o surto de conjuntivite. Doze cidades notificaram a Secretaria de Estado de Saúde

Já na Oculare, clínica particular que fica no bairro Santa Efigênia, região Leste, a procura triplicou desde a última segunda-feira. Quase 90% das 300 consultas diárias foram para pessoas com a inflamação nos olhos.

Para a oftalmologista Ariadna Borges Muniz, que também é diretora da Fundação Hilton Rocha, no Mangabeiras, Centro-Sul de BH, a quantidade de atendimentos necessita de atenção especial. “Há muito tempo não via um surto como este. No Hilton, os casos saltaram de 15 para 140 por dia”.

Ariadna Muniz alerta que a doença é muito contagiosa, e que as infecções tendem a aumentar caso o paciente não se afaste de locais com aglomerações de pessoas, como o ambiente de trabalho, escolas e igrejas.

O oftalmologista e professor da UFMG Daniel Vasconcelos reforça o coro de que o quadro é atípico. Para ele, o fato de a infecção estar relacionada ao vírus de outra doença pode explicar o surto. “Isso porque quem ficou gripado recentemente pode desenvolver a conjuntivite como uma outra reação”.

Região Central do Estado é a segunda com o maior número de surtos da doença. Há casos em sete municípios como Belo Horizonte, Santa Luzia, Sete Lagoas, Curvelo e Pará de Minas. Também há notificações no Norte de Minas, Sul, Rio Doce e Jequitinhonha e Mucuri

Controle
A Secretaria de Estado de Saúde, no entanto, garante que a situação está sob controle. “Esse quadro é próprio do verão, que propicia a propagação de vírus e bactérias”, afirma a infectologista Tânia Marcial, referência técnica do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde de Minas Gerais (Cievs).

Pacientes enfrentam longa espera por atendimento

Além do incômodo provocado pela conjuntivite, os pacientes também precisam enfrentar longas filas para conseguir atendimento. A auxiliar de serviços gerais Audry Rose Alencar, de 30 anos, diz ter chegado antes das 7h na Santa Casa de BH, mas, mesmo assim, não conseguiu uma senha. 

Segundo o hospital, algumas pessoas estão buscando a clínica sem antes passar pelos postos de saúde dos bairros. Com a demanda elevada, dois médicos foram convocados para reforçar o plantão. Mesmo assim, a espera leva cerca de quatro horas.

Conjuntivite

Nos últimos três dias, 125 pacientes foram atendidos na Clínica de Olhos da Santa Casa de Belo Horizonte

Em alguns casos, a espera é ainda maior. É o caso da diarista Luciene Coelho, de 39 anos. Ela e o filho Diego Henrique de Oliveira, de 17, chegaram ao local às 6h e só foram atendimentos por volta do meio-dia. Como a doença é altamente contagiosa, eles contam que várias pessoas da família ficaram doentes. Ao todo, seis pessoas contrairam a infecção. “Meus primos pegaram primeiro e aí minha mãe pegou. Lá, em casa meus pais e todos os irmãos”, disse Diego. 

Recomendação
Ontem, a equipe de reportagem do Hoje em Dia entrou em contato, por telefone, com quatro centros de saúde da prefeitura de BH. Os funcionários disseram que a orientação para quem estava com conjuntivite era buscar atendimento na Santa Casa.

Secretaria de Saúde de BH diz que apenas casos graves são encaminhados para hospitais de referência da cidade. Os demais são atendidos nos postos municipais

No entanto, após contato com a Secretaria Municipal de Saúde, a informação foi a de que o protocolo é inverso, e que os postos da capital estão preparados para dar o diagnóstico e orientar as pessoas sobre o tratamento. Apenas casos graves, como a piora da visão ou alterações na córnea, são encaminhados, pelo médico, para hospitais de referência.