O ritmo de contágio por Covid-19 no interior de Minas é duas vezes maior do que em BH e cidades vizinhas. A velocidade com que a doença se espalhou nos últimos 30 dias em municípios distantes ou que não dependem dos hospitais da capital preocupa diante do risco de colapso no sistema de saúde. O próprio Estado já admitiu a possibilidade de lockdown em locais mais críticos.

O comparativo para cravar que o número de doentes se espalha mais rápido pelo interior leva em conta a divisão administrativa utilizada pelo SUS e Secretaria de Estado de Saúde (SES), as chamadas regionais de saúde. Entre 19 de maio e 19 de junho, o acumulado de casos na microrregião Belo Horizonte – que engloba a metrópole e mais 12 localidades do entorno – cresceu 239% (ver arte).

Já nas demais regionais de saúde do Estado, o salto no mesmo período foi de 499%. Nelas, os diagnósticos positivos passaram de 3,5 mil para 21 mil. Os dados são da plataforma Coronavirus-MG.com.br, que analisa os balanços da SES.

Tragédia sanitária

Para o infectologista e professor da UFMG Unaí Tupinambás, a pandemia pode durar meses nos municípios pequenos, principalmente os que fazem fronteira com São Paulo e Rio de Janeiro. “A gente tem risco de ter uma onda contínua. Não vai ser só uma primeira onda, vai ficar por muito tempo”, disse.

O receio de que os casos se alastrem para a capital e regiões central e metropolitana não está descartado. O infectologista lembra que a doença pode “subir” pelas BRs 040 e 381. “Vai chegando e se espalhando de forma assustadora e preocupante”.

“Se não tiver medidas drásticas, a nossa projeção é de uma tragédia sanitária de grandes proporções. Tem cidade com academias abertas. Para quê academias? Cultos religiosos têm que ser proibidos”, afirma o infectologista e professor da UFMG, Unaí Tupinambás

Segundo ele, é preciso rigor para barrar o vírus. Isolamento social, obrigatoriedade do uso de máscara de proteção e fechamento do comércio não essencial são medidas fundamentais. “Tem cidade com academias abertas. Para quê academias? Cultos religiosos têm que ser proibidos. Cada cidade tem uma epidemia diferente, mas é preciso propor regras sanitárias”.

Em nota, a SES garantiu que desde o início da pandemia trabalha na construção de planos macrorregionais para identificar leitos existentes e possíveis ampliações. A pasta ressaltou que convidou todos os secretários municipais de saúde e os prefeitos para tirar dúvidas e indicar o planejamento adequado. “No entanto, a SES-MG destaca que sem distanciamento social é impossível a adequação de qualquer capacidade assistencial”.

Na semana passada, o chefe de gabinete da SES, João Pinho, disse que um protocolo para a realização de lockdown em cidades críticas será elaborado. “A gente espera não usar, não é para o Estado todo, mas a gente está desenvolvendo”, afirmou.

A reportagem tentou contato com a Associação Mineira dos Municípios (AMM) para comentar o cenário enfrentado pelas prefeituras do interior, mas não conseguiu retorno.

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