A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) propôs que as obras assumidas pela Vale, que vão garantir o abastecimento de água na Grande BH em 2020, sejam antecipadas de setembro para junho do próximo ano. O novo cronograma foi proposto nesta terça-feira (18), durante audiência no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).

Uma adutora deve ser construída pela mineradora em ponto localizado 12 quilômetros acima daquele em que o Rio Paraopeba foi atingido pela lama de rejeitos da barragem de Brumadinho.

Com a antecipação, a companhia pretende evitar que haja desabastecimento ou racionamento na região metropolitana no próximo ano, uma vez que não há garantias de que as chuvas do período 2019/2020 ocorram na média que garante captação suficiente de água.

Participantes da reunião informaram que a mineradora pediu prazo para verificar a mudança de data do início das intervenções. Procurada pela reportagem, a Vale ainda não se posicionou.

O promotor André Sperling, do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), contudo, informou que a decisão final sobre o prazo será tomada nas próximas audiências, marcadas para os dias 5, 8 e 9 de julho.

“A Vale apresentou um cronograma para setembro de 2020 e hoje a Copasa apresentou dados dizendo que teria que ser em junho. Porque se na estação chuvosa cair um pouco menos de chuva, pode ser que a gente tenha uma situação em que no meio do ano que vem a gente já tenha que começar a reduzir espontaneamente o consumo”, afirmou.

Impasses

A reunião, que começou de forma amistosa, teve momentos de ânimos exaltados. Representantes da Vale, do MPMG e do Movimento de Atingidos por Barragem (MAB) divergiram sobre as propostas de que a mineradora assuma a dívida dos agricultores atingidos pela tragédia.

Segundo o Jocely Andreoli, membro do MAB, a mineradora está propondo que acordos individuais feitos por ela com alguns agricultores sejam validados como os oficiaisl para repor as dívidas dos atingidos. O MPMG discorda e pede uma definição coletiva da reparação.

“O juiz pediu às partes para tentar um acordo até a próxima reunião. O Ministério Público apresentou uma proposta que seria um adiantamento de indenizações de R$ 30 mil para as pessoas que foram prejudicadas e têm contas a pagar. A Vale não topou”, disse Andreoli.

O valor seria usado por pequenos agricultores que estão tendo dificuldades para vender produtos produzidos na cidade. A produtora rural Soraya Campos diz que não tem conseguido mais arcar com seus compromissos. Só ela já deve mais de R$ 28 mil em financiamentos para suas produções.

“Não temos mais como pagar as dívidas que tínhamos e a Vale está nos obrigando, pelo desespero, a ir para o acordo individual. Porque ele pagaria essas contas. Mas queremos um acordo coletivo. Quando me endividei com o banco, eu tinha renda. Não imaginava que, no meio do parcelamento, perderia o ganha-pão”, lamentou.

Segundo Soraya Campos, entre os produtores, há dívidas que superam R$ 50 mil, pois consumidores estão receosos em comprar produções de agricultores da cidade. “Eu não culpo essas pessoas que não querem nossa produção. Nem nós estamos usando a água da cidade, estamos produzindo com água mineral. Nós temos produções sim, com água mineral e água de lagoa. Mas não temos como convencer essas pessoas que nossas verduras são limpas e descontaminadas”, comentou.

Outro ponto que ficará para a próxima audiência será a definição da assessoria técnica independente que vai acompanhar os moradores das cidades de Mário Campos, São Joaquim de Bicas, Betim, Igarapé e Juatuba, na busca por seus direitos. A Vale pediu vistas para aceitar a organização indicada pelos atingidos.

A Vale informou que na próxima segunda-feira (24) a mineradora volta a se reunir com a Copasa para buscar alternativas que visem manter os padrões de captação no rio Paraopeba em ponto a montante da B1, área não atingida pelo rompimento.