O último domingo (5) foi marcado por muita gente desrespeitando o isolamento social pedido pelas autoridades e indo às ruas, principalmente para a prática de atividades ao ar livre. Em Belo Horizonte ficou marcada a aglomeração de pessoas na Lagoa da Pampulha. O que as pessoas que foram ao cartão-postal da capital mineira se exercitar, seja em corridas, caminhadas ou numa bicicleta, não sabem, é que o risco de contágio pelo novo coronavírus durante o exercício, mesmo que ao ar livre, é real e as regras de distanciamento de ambientes fechados não vale para essas práticas.

Um estudo realizado em conjunto por pesquisadores da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, e da Universidade Tecnológica de Eindhoven, na Holanda, mostra que na corrida e ciclismo, a distância padrão de até dois metros é pouco para se evitar o contato com gotículas produzidas por quem está à frente na atividade.

Pessoas fazendo caminhada Lagoa da Pampulha

Na manhã da última quinta-feira (9), apesar dos pedidos da Prefeitura de Belo Horizonte, que cercou várias áreas na orla da Lagoa da Pampulha, pessoas faziam atividades físicas no local

O Hoje em Dia ouviu dois professores de Educação Física da UFMG sobre o assunto. E a conclusão é de que as pessoas que acharam estar cuidando da saúde no último domingo, na Pampulha, estavam era se expondo ao contágio pelo novo coronavírus.

“Pelo que posso entender, as distâncias estão ligadas às diferenças entre volumes de ar deslocados, inclusive se estiver ventando mais ou menos. Quando andamos, ela é menor, quando corremos, maior, e quando pedalamos, maior ainda. Essas diferentes massas de ar deslocadas permitirão carregar mais gotículas numa velocidade maior e abrangendo maior área. E essas gotículas estarão também sendo proporcionalmente maiores nestes exercícios mais intensos, como por exemplo correr comparado com andar”, explica Danusa Dias Soares, professora titular de fisiologia do exercício da UFMG.

“A possibilidade de se pegar ainda gotículas no ar de quem está correndo na sua frente é real. Cheiro é um exemplo. O mesmo tempo que você pode sentir o cheiro da pessoa à sua frente, você pode ter contato com gotículas que ela deixa na corrida. E a liberação é ainda maior. A partícula pode se manter no ar por muito mais tempo. Ela tem massa e vai ser puxada para o chão. Mas dependendo da turbulência do ar, de baixo para cima, ela vai se deslocar para a frente” revela Leszek Antoni Szmuchrowski, professor titular do Esporte da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Educacional da UFMG e coordenador de atletismo do CTE.

Respiração

O risco nas atividades físicas em locais com várias pessoas é real até pela respiração que é modificada durante o exercício, como explica Danusa: “quanto mais intenso e mais duradouro o exercício, maior o consumo de oxigênio. Para aumentar o consumo de oxigênio, iremos sim aumentar a ventilação. Esse é um processo regulado pelo sistema nervoso central, no centro respiratório. Assim, iremos aumentar a ventilação aumentando tanto a frequência respiratória, como também tentaremos aumentar o volume de ar que precisamos levar para os pulmões. Para isso, passamos a respirar com a boca aberta, por exemplo”.

Com base em testes feitos em laboratório, levando em consideração aspectos do ar livre, a pesquisa belga e holandesa diz que na corrida ao ar livre, a distância de segurança entre as pessoas pode chegar a cinco metros, mais que o dobro dos dois metros recomendados quando se trata de ambientes fechados ou mesmo abertos, mas com o vento fraco.

No ciclismo, o estudo mostra impressionantes dez metros de distância, quase se desenvolve pequena velocidade, e 20 metros, dez vezes mais que o recomendado em situações normais, quando a velocidade desenvolvida é próxima do que se tem em competições.

O estudo mostra que a aglomeração de pessoas para a prática de atividades ao ar livre, como aconteceu no último final de semana em alguns pontos de Belo Horizonte, é um risco maior que o imaginado.

arteSimulação das gotículas liberadas pelas pessoas quando fazem corrida ao ar livre. A imagem faz parte do estudo da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, e da Universidade Tecnológica de Eindhoven, na Holanda