O coronel reformado da Polícia Militar (PM) Alberto Luiz Alves, que também é o atual secretário de Segurança Pública de Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, será investigado após entrar na universidade Newton Paiva, no bairro Caiçara, na região Noroeste da capital, e ameaçar alunos e uma professora do curso de Direito, na noite dessa quinta-feira (22). Após a confusão, ocorrida na porta da sala onde a filha dele estuda, a docente e a universitária ameaçadas foram escoltadas pelos seguranças da instituição, por medo. 

Hoje em Dia conversou com a estudante, de 21 anos, que registrou um Boletim de Ocorrência por conta das ameaças, na tarde desta sexta-feira (23). Segundo ela, toda a discussão teria acontecido após a filha do militar, que também cursa o 10º período da faculdade, ter deixado a sala logo depois de responder à chamada feita pela professora, que questionou quem seria a aluna.

"Ninguém falou nada, mas quando ela disse que faria a chamada novamente, eu comecei a falar que não era ela. Eu queria que fosse rápido, não achava justo prejudicar todo mundo que não tinha nada com isso. Mas, algum amigo dela mandou mensagem para ela dizendo que eu 'dedurei' ela", lembrou. 

Pouco tempo depois disso a filha do coronel Alberto Luiz retornou até a sala, perguntando se tinha algum problema e dizendo que saiu da sala por estar passando mal. A professora então teria pedido que a jovem enviasse um e-mail justificando a ausência e, antes de sair, ela teria dito que queria conversar com a colega. "Eu mandei um beijo e fiz um sinal de joia. Foi aí que ela começou a me xingar, disse que eu era uma escrota, que era para eu cuidar da minha vida, e a professora fechou a porta. Cinco minutos depois o pai dela chegou na porta da sala, muito exaltado", conta a estudante de Direito. 

Toda a confusão foi gravada pelos alunos, sendo que a reportagem teve acesso a alguns áudios e vídeos do momento. Neles, é possível ouvir o coronel pedindo licença para a professora antes de começar a falar.

Ouça um trecho da gravação, que foi editada para preservar os momentos em que o nome da jovem ameaçada é citado: 

"Eu fui na coordenação para saber qual é o problema que minha filha está dando em sala de aula? Parece que aqui é escola, primário. Tem uma tal de (ele cita o nome da aluna que o denunciou) que fica invocando com ela, eu quero saber qual que é o problema?", fala o militar. Em seguida, ele fala que a polícia pode ser chamada e, ao ouvir a professora dizer que "estava dando aula" ele esbraveja: "Acabei de pagar a sua aula, acabei de pagar a sua aula ali agora". 

Nesse momento alguns dos alunos começam a reclamar, pedem licença para o coronel e outros chegam a sugerir que a porta da sala seja fechada. O policial aposentado chega a gritar com um rapaz, dizendo para ele "ficar no seu canto". "Eu não gosto que façam qualquer palhaçada com a minha filha, eu sou pai, não me interessa se é a sua aula, se não é. E se esse moço aí tá com algum problema, ele pode vir aqui conversar comigo. Eu quero que essa universidade, eu vou no reitor, eu vou aonde for, mas eu não aceito isso", completou o coronel. 

Nos vídeos recebidos pela reportagem, é perceptível o medo da professora, que pede que os seguranças o acompanhem até a saída do prédio. "Não fica perto dele, que ele está muito exaltado. Se ele não sair, eu quero uma escolta para essa aluna ir embora, que ele está atrás dela. Depois você vai explicar, pede pra fazer uma reunião com ele, só vou liberar os alunos aqui", diz a docente. 

Ainda de acordo com a estudante que foi ameaçada, ela conhece a filha dele desde o 2º período e nunca teria tido qualquer problema com ela. "Ele gritou com a professora, então ficamos com medo, por ele estar muito nervoso e aí chamaram os seguranças. Eu acho que o que aconteceu foi conversa atravessada. De qualquer forma, eu fui na coordenação e disseram que vão reforçar a segurança, pois um pai não poderia entrar na faculdade, muito menos fazer tudo o que ele fez", contestou. 

Procurada, a faculdade Newton Paiva informou, por meio de uma nota, que lamenta o ocorrido e mantém seus valores de acolhimento e apoio a todos os seus alunos, professores e colaboradores, indiscriminadamente. "A Newton esclarece que foi surpreendida pelo fato e que, nesse momento, está apurando todas as circunstâncias para tomar as medidas cabíveis, resguardar a ordem, a segurança na instituição e oferecer, a todos os  envolvidos, a assistência necessária para a superação do episódio”, concluiu. 

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da PM, que disse apenas que, por se tratar de um militar reformado, e o fato ter ocorrido em um local particular, que não envolve a corporação, não seria possível se posicionar sobre o ocorrido. Já a Polícia Civil (PC), que registrou o Boletim de Ocorrência da estudante, não repassou detalhes sobre a apuração do caso. 

"Fiquei nervoso, mas a professora deveria ter sido uma pessoa preparada para me ouvir", diz coronel

Após a repercussão dos áudios de suas ameaças, o coronel Alberto Luiz Alves conversou com o Hoje em Dia por telefone, na noite desta sexta. Durante a conversa ele confirmou que ficou nervoso e que, na manhã seguinte, foi até a universidade para pedir desculpas pela confusão, sendo surpreendido com as denúncias feitas na imprensa.

"Aí eu tive que voltar lá para saber qual que é a da universidade, que não tem nada com isso, mas a professora é funcionária dela, não pode deixar isso. Fiquei nervoso, mas ela (professora) deveria ter sido uma pessoa preparada para me ouvir, não fechar a porta. Eu não estava sozinho, estava com alguém da coordenadoria quando cheguei na porta", argumentou. 

Ele relata que há quatro anos leva a filha na faculdade e fica na área de alimentação esperando o fim da aula, segundo ele, por uma questão de segurança. "Eu sou pai, cuido dos meus", disse. Na quinta, ainda conforme o oficial aposentado, a filha estaria passando mal, já que está passando por um tratamento de saúde. "Paguei um boleto e fiquei lendo um livro, quando minha filha voltou e disse que iria embora por estar se sentindo mal. Foi aí que ela recebeu a mensagem de um colega de turma dizendo que uma das meninas, que normalmente a hostiliza, falou com a professora que ela respondeu a chamada e foi embora", fala o coronel Alberto. 

Na versão do policial, a filha subiu até a sala para se justificar para a professora e, ao sair, viu a jovem que registrou o boletim de ocorrência contra ele fazendo um sinal de ameaça, passando o dedo pelo pescoço. "Minha filha foi na coordenação e me chamou. Pedi que me levassem na sala, para eu saber com a professora. Com a porta entreaberta, eu disse que era o pai da aluna que saiu há pouco e ela (professora) foi grossa, não quis me ouvir, disse que estava dando aula. Eu falei que tinha pagado a mensalidade, que deve fazer parte dessa aula. Também falei para avisar a fulana lá (aluna) que eu queria saber o que ela tinha contra minha filha", completa. 

O coronel Alberto diz ainda que pedirá as imagens do corredor para provar que não entrou na sala. Ele diz também que não estava armado e que em momento algum ameaçou alguém. "Esse pessoal, que está colocando meu nome, minha patente, falando que eu invadi a faculdade. Isso no mínimo é calúnia, crime contra a honra. Eu vou discutir com elas é na Justiça", finalizou. 

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