O corpo do operário Claiton Pereira, de 37 anos, foi levado para o IML de Belo Horizonte no início da noite desta quarta-feira (5). O operário morreu soterrado enquanto trabalhava na fundação de uma obra no bairro Funcionários, na região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Ele foi localizado por volta das 16h40 e cerca de 20 bombeiros trabalharam no resgate, que só foi concluído no fim da noite, cerca de 10 horas após o acidente. A vítima estava a três metros abaixo do nível do solo.

Técnicos no local explicaram que o resgate foi demorado porque a terra estava comprimida em decorrência da chuva dos últimos dias. Além disso, antes de começar a retirar a terra do buraco, os bombeiros gastaram cerca de uma hora para fazer o trabalho de escoramento. Os militares utilizam várias técnicas de salvamento, incluindo o rapel. 

O agente da Defesa Civil Marcos Vinícius Vitório informou que, aparentemente, o operário não usava Equipamento de Proteção Individual (EPI). Pelas normas, segundo ele, o operário deveria usar um bolsão com uma grade de ferro que impediria que a terra descesse. Mas a Terrazzas Construtora, responsável pela obra, negou a necessidade do equipamento. Por meio de nota, a construtota informou que, para o serviço, "não era exigida a utilização do 'encamisamento' durante a escavação, conforme projetos, relatórios técnicos e laudo de estabilidade do solo".

Colegas contaram, ainda, que uma máquina, tipo escavadeira, passava pelo solo enquanto o operário escavava um tubulão. A situação, segundo eles, é inapropriada porque movimenta a terra. “Uns quinze minutos antes do acidente ele subiu e avisou que se a máquina continuasse era arriscado cair terra em cima dele. Ninguém tomou providências para parar. Então é revoltante porque dava para ter evitado. É triste porque é um colega de trabalho e amigo”, conta Paulo Roberto Marques do Santos, 26 anos, que era puxador e hoje fazia o primeiro dia de trabalho na obra.

A empresa também negou a existência de uma máquina no local. Por meio de nota a Terrazzas Construtora, afirmou que "não houve tráfego de máquina pesada perto do local do acidente, o que foi confirmado pelos profissionais responsáveis e demais trabalhadores presentes na obra".

Apesar das denúncias, a real causa do deslizamento ainda não foi esclarecida.

O resgate

O acidente aconteceu por volta das 10h30 na esquina das ruas Piauí com Aimorés. No início, os bombeiros estavam esperançosos de retirá-lo do local com vida. Porém, com o avançar das horas essa chance foi diminuindo. Além de quatro viaturas dos bombeiros, uma ambulância do Sistema Único de Saúde (SUS) e a perícia da Defesa Civil também foram acionadas 

Um homem que trabalha na obra disse estar chocado com o acidente. “Eu tive um livramento, porque estava bem próximo na hora, fiz o que podia até os bombeiros chegarem. Como fazemos a mesma função, é uma situação bem triste para mim", declarou o poceiro Vilmar Silva.

A obra, que ainda está na parte de fundação, é de construção de um edifício residencial, com apartamentos de dois e três quartos. A Terrazzas Construtora, responsável pelo empreendimento, lamentou o acidente e garantiu estar prestando todo o amparo à família da vítima. A empresa informou, por meio de nota, que atua há 15 anos no mercado e sempre presou pela segurança e bem-estar de todos dos funcionários.

"Nos transformamos em uma das referências em segurança do trabalho no setor da Construção Civil, através de um rigoroso controle da utilização correta de todos os equipamentos de proteção e adoção de práticas e iniciativas inovadoras". Na nota, a construtora ressalta que "infelizmente o risco é inerente à nossa atividade e estamos muito consternados com o acontecido, nossa equipe já está prestando todas as informações às autoridades competentes, para a rápida apuração do caso".

No início da noite, a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec) informou que interditou a obra e notificou os responsáveis a elaborar e apresentar um laudo de estabilidade e um plano de ação para a continuidade dos trabalhos. Segundo o órgão, as causas do acidente serão apuradas pela perícia da Polícia Civil.

Claiton Pereira era casado e a mulher dele está grávida. Ele tinha outras quatro filhas de um primeiro casamento.

Confira a nota da construtora na íntegra:

  • "Todos os equipamentos de proteção, individuais e coletivos, estavam sendo utilizados pelos trabalhadores que atuavam na escavação - seguindo as normas regulamentadoras NR6, NR18 e NR33 -,  conforme foi atestado pelas autoridades competentes presentes no local;
  • não houve tráfego de máquina pesada perto do local do acidente, o que foi confirmado pelos profissionais responsáveis e demais trabalhadores presentes na obra;
  • diferentemente do que foi veiculado, não era exigida a utilização do 'encamisamento' durante a escavação, conforme projetos, relatórios técnicos e laudo de estabilidade do solo.
  • Portanto, o que houve foi uma fatalidade, pois, infelizmente, o risco é inerente à atividade da construção. No entanto, a construtora ressalta que mantém rigorosa política de segurança e bem-estar de todos os colaboradores, diretos ou indiretos. Ao longo dos últimos 15 anos, consolidou-se como uma das referências em segurança do trabalho no setor da Construção Civil, a partir de um rigoroso controle da utilização correta de todos os equipamentos de proteção e adoção de práticas e iniciativas inovadoras. Em relação ao acidente, a equipe técnica da empresa está prestando todas as informações às autoridades competentes para a rápida apuração do caso.
  • A empresa informa que lamenta profundamente o acidente que, infelizmente, vitimou o profissional Cleiton Pereira da Silva, contratado de uma prestadora de serviços. Afirma também que mantém seu compromisso de prestar amparo necessário à família da vítima neste momento tão difícil. A empresa está em luto e agradece as manifestações de solidariedade que está recebendo".

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