Barão de Cocais - As placas indicando rotas de fuga, o olhar desconfiado e cabisbaixo dos moradores e a intensa movimentação de jornalistas, agentes da Defesa Civil e militares do Corpo de Bombeiros indicam a reviravolta na vida dos moradores de Barão de Cocais. 

Desde 8 de fevereiro, quando a Vale não conseguiu atestar a estabilidade da barragem Sul Superior, o caos se instalou na cidade da região Central de Minas Gerais. Todavia, com o deslizamento no talude norte da Mina Gongo Soco, a preocupação foi ampliada. Além do esvaziamento de comunidades da zona rural da cidade que poderiam ser atingidas em caso de ruptura do barramento, comerciantes viram os rendimentos despencarem nos últimos meses e até festas tradicionais precisaram ser adiadas. 

Nas praças, os bancos vazios também demonstram o momento vivido pela população da cidade. “Isso virou uma confusão. A gente não sabe o que faz, não temos sossego”, desabafou a produtora rural Aparecida das Dores, de 57 anos. Ela morava com o namorado no bairro Lagoa, um dos que seriam atingidos pela lama em caso de colapso do barramento, e se mudou para uma área segura em março. “Estou pagando o aluguel do meu bolso, de R$ 300. Tenho muita fé em Deus que essa situação possa melhorar”, pondera. Há mais de 20 anos, a aposentada Gildete Moreira, de 70, organizava a festa do ‘Pé de pomba ausente’, um evento tradicional que reúne moradores que ainda residem em Barão de Cocais e pessoas que já deixaram a cidade. 

O apelido pé de pomba ausente, segundo ela, surgiu por causa do pó de minério na cidade. “Quem anda descalço fica com o pé vermelho igual pombo”, brinca. A festa sempre ocorria dia 21, 22 e 23 de junho. “Esse ano tivemos que cancelar, estava tudo marcado, mas as pessoas estão com medo de vir para Barão, não tem clima mais”, contou. 

Além da tristeza em não poder realizar o evento, ela também contabiliza prejuízos. Ela tem quatro imóveis de aluguel na cidade. Só dois estão ocupados. “É um prejuízo de no mínimo R$ 5 mil. Eu já tinha até esses contratos fechados, mas as pessoas desistiram”, lamentou. 

Outro costume quebrado foi o da Cavalhada de Socorro. O vilarejo foi um dos esvaziados por estar na mira da lama de rejeitos da barragem Sul Superior em caso de colapso. “Eu participo todo ano. Mas esse ano não tem. A gente não consegue nem entrar em Socorro mais”, conta o carregador Bruno Santos, de 26 anos. “Tenho fé que a padroeira, Nossa Senhora Mãe Augusta do Socorro, não vai deixar nada de mal nos acontecer”, afirmou Bruno, enquanto tentava aliviar a tensão dos últimos dias em um bar na Praça Nossa Senhora Aparecida. 

Comércio em queda 

Quem visita Barão de Cocais até pode até imaginar que a movimentação no comércio é boa. Mas, para os comerciantes, o prejuízo é uma realidade. “Normalmente aos sábados pela manhã, a gente recebe uma média de 50 clientes. Hoje foram só cinco. Já tiveram dias que abrimos e ninguém comprou nada”, relatou Ana Letícia Soares, de 22 anos, que trabalha em uma loja de calçados e artigos esportivos. 

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Vizinho à loja, o bar de Renah Santos, de 36 anos, também não registra mais a movimentação de costume. Herança da família, o estabelecimento está no entorno da Praça Nossa Senhora Aparecida, no Centro da cidade. “Já tivemos período graves de crise, mas nada se compara a este período. Meu faturamento caiu 70% e não tenho expectativa de melhora”, reclama. 

Além do temor que toma a cidade, outra justificativa para a movimentação baixa é o fechamento dos bancos de Barão de Cocais desde a semana passada. “As pessoas não sabem o que vai acontecer. Todo mundo está evitando gastar dinheiro porque nem banco temos mais”, salientou a vendedora Dayane Stephanie Oliveira, de 22 anos. 

Ela trabalha em uma loja de bijuterias e artigos femininos no centro do município. “Nosso movimento já havia caído muito com a falta de segurança na barragem. Agora essa história do talude piorou tudo”. 

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Localizada há 20 anos em um dos pontos mais tradicionais na cidade, ao lado da Igreja de São João Batista, no bairro Lagôa, a padaria e lanchonete de Fabiano Oliveira registra uma queda de 60% no faturamento desde fevereiro. “O pessoal compra só o mínimo. Estou fazendo a reposição de mercadorias em menor quantidade”, diz Fabiano, de 43 anos. “Quem trabalha com comércio está acostumado com crises momentâneas, mas essa parece eterna. A cidade acabou”, desabafa. 

A reportagem procurou a Vale para saber sobre ações de amparo à população de Barão de Cocais. A mineradora, em nota, informou que desde o momento em que a barragem não teve a estabilidade garantida cerca de 400 moradores das comunidades de Socorro, Piteiras, Tabuleiro e Vila do Gongo foram levados pra hoteis e casas alugadas. A empresa também informou que fez uma “doação emergencial” de R$ 5 mil às famílias. Ainda segundo a Vale, atendimento médico e psicológico foram oferecidos à população.