Uma grande insegurança tomou conta de pais e mães pelo mundo afora com a inclusão das pessoas com asma no grupo de risco do novo coronavírus. Isso porque é uma patologia que afeta muitas crianças, justamente a parcela com sintomas mais brandos da Covid-19 segundo os números da Organização Mundial de Saúde (OMS). Qual fator seria mais importante no caso de infecção?

O Hoje em Dia ouviu o pneumologista e alergista pediátrico Wilson Rocha Filho, Coordenador do Serviço de Pneumologia e Alergia Pediátrica do Hospital Infantil João Paulo II, o Centro Geral de Pediatria (CGP) e uma das grandes autoridades do Brasil no assunto.

Médico Wilson Rocha

Wilson Rocha Filho é coordenador do do serviço de pneumologia e alergia pediátrica do Hospital Infantil João Paulo II, o Centro Geral de Pediatria (CGP)

E a primeira questão levantada por ele é o cuidado que se precisa ter quando se está no meio de uma pandemia. “Em 2003, tivemos uma pandemia por coronavírus. Eu já estava no CGP e cheguei a participar de um congresso, nos Estados Unidos, com um médico de Hong Kong que era uma referência no tratamento do vírus e ele passou uma característica importante: "o coronavírus é um vírus pouco catarral em comparação com outros vírus. Fizemos todo um protocolo de tratamento mas depois vimos que tudo o que tínhamos planejado, com base nos dados científicos da época, adiantaria quase nada e em determinadas situações poderia até piorar o quadro clínico”, revela Wilson.

No quadro atual, a pouca e até ausência de secreção que escorre pelo nariz, segue como uma das características das crianças infectadas pelo coronavírus, o que pode ajudar no diagnóstico. Sobre a asma, as observações são ainda iniciais: É provável que a criança asmática leve ou bem controlada não caracteriza um fator de risco, mas mais dados precisam ser analisados e conhecidos. Já as cardiopatas, HIV positivo ou imunodeprimidas, essas precisam de todo o cuidado, pois integram o grupo de risco. De toda forma, os relatos são de um vírus menos asmatogênico, isto é, causa menos chieira que outros vírus comuns da infância. Os sintomas do coronavírus se assemelham mais com o Influenza, causando mais pneumonia do que chieira”,”, revela o pneumologista e alergista.

Experiência

Voltando a 2003, Wilson recorda de um caso muito divulgado em Belo Horizonte na época, que foi o de uma criança que tinha chegado a Confins vindo do Japão e apresentava sintomas de coronavírus: “O médico de Hong Kong tinha dito no congresso que que era usado como critério de triagem deles a presença de catarro na criança. Eu estava voltando de viagem e foi internado no CGP um menino, que tinha voltado do Japão, e o caso era suspeito. Foi como se um tsunami tivesse
atingido o hospital. Quando cheguei todas as rádios, jornais e TVs estavam na porta do hospital.Os porteiros não foram trabalhar. Até os flanelinhas que trabalhavam na rua sumiram. O atendimento no Pronto Socorro, que é ao lado, caiu em mais de 90%. Usando todas as EPIs, o japonesinho estava correndo pelo corredor do andar separado pela gente. Quando me aproximei dele, estava com o nariz escorrendo, com catarro abundante. Depois o exame mostrou que ele não tinha o coronavírus, mas isso já era quase uma certeza pelo relato no congresso nos Estados Unidos”, conta o especialista, que revela que naquela epidemia o CGP não recebeu nenhuma criança com coronavírus.

Segurança

Assim como em 2003, o João Paulo II tem um andar inteiro reservado agora a pacientes suspeitos, mas a coisa segue tranquila, sem casos confirmados e com alguns ainda dependendo de confirmação: “O resultado dos exames tem demorado vários dias. Isso é muito tempo numa pandemia”, revela Wilson.

Uma grande dúvida em relação ao novo cornavírus é o fato de as crianças terem sintomas mais brandos. Segundo ele, isso pode ser reflexo de uma percepção que vem sendo desenvolvida no mundo científico: “a suspeita é de que uma das proteínas que permite o vírus entrar na célula, na criança ela ainda não está muito bem desenvolvida. Uma maior dificuldade do vírus entrar na célula pode estar relacionado com o fato de crianças não evoluírem com mais frequência para a forma mais grave”.

Outros dois pontos destacados pelo especialista é que ainda não se sabe com precisão o potencial de transmissão do vírus pelas crianças, pois os registros são sempre contaminação pelo contato com adultos com a Covid-19.

O isolamento social, neste momento da pandemia no Brasil, é fundamental para ele. “Você poderia pensar em uma coisa mais branda se fizesse teste em massa, principalmente no início. Agora, não tem como. A única solução para desafogar o sistema de saúde é mesmo o isolamento social”, avalia Wilson Rocha Filho.