O número de motoristas embriagados presos em flagrante na capital mineira cresceu neste ano. De janeiro a julho, 535 foram encaminhados ao Detran, uma média de 76,4 por mês. Em 2014, a média mensal de prisões foi 61,33 (736 condutores no total), e 54,5 em 2013 (654 no ano). Para especialistas, os dados demonstram que os condutores não se sentem intimidados pela Lei Seca.

As explicações estariam na percepção da redução de blitze específicas, que eram mais frequentes na cidade até o ano passado. Também na lentidão dos processos que definem punições aos motoristas infratores, que podem demorar anos.

Para professor Márcio Aguiar, especialista em transporte e trânsito e professor da Fumec, o crescimento no número de infratores detidos reflete a fragilidade da fiscalização. “As blitze com bafômetro só acontecem de forma pontual, não existe uma constância. Com isso, a tendência é a alta nos delitos”.

Apenas no último fim de semana foram 23 prisões. O comportamento desses motoristas, na avaliação do advogado especialista em direito de trânsito Carlos Cateb, também aponta a sensação de impunidade como um estímulo a quem não tem receio em dirigir após ingerir álcool.

“As punições são ínfimas, não valem nada. Os processos não andam, muitas vezes prescrevem, o valor da fiança para que a pessoa seja liberada não intimida. Fica a sensação de que não vai acontecer nada, ficar preso, nem perder a carteira. Isso gera a convicção de que pode beber à vontade e dirigir”, opina.

Filmagem

Uma nova formatação das blitze promete fechar o cerco a estes motoristas. Uma nova estratégia, usada desde a última quarta-feira nas ações da campanha “Sou pela vida. Dirijo sem bebida”, é filmar as abordagens para que as imagens possam ser usadas como prova da embriaguez, caso o condutor se recuse a soprar o bafômetro.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), a filmagem é permitida pela Lei 12.760/12, a nova Lei Seca. Na noite de quarta-feira, uma operação foi realizada no entorno do Mineirão. Três equipes abordaram 106 motoristas e sete estavam dirigindo sob efeito de bebida.

Segundo o coordenador de operações policiais do Detran, delegado Anderson Alcântara, a sensação dos motoristas de que as blitze foram reduzidas é equivocada. Ele afirma que novas estratégias foram adotadas para que as operações sejam mais eficientes e resultem em um maior número de prisões.

Aplicativo para burlar fiscalização motiva mudança de estratégia

As mudanças de estratégia nas blitze foram motivadas, sobretudo, pelo fato de cada vez mais, com ajuda de aplicativos de celular, os motoristas estarem burlando a fiscalização. “Tínhamos grande quantidade de abordagens, mas produzindo poucas prisões. No formato da blitz fixa, com as redes sociais, o efeito é contrário. Os motoristas ficam sabendo da operação e mudam a rota”, diz o coordenador de operações policiais do Detran, delegado Anderson Alcântara.

Segundo ele, o trabalho de inteligência buscou qualificar as abordagens, sem priorizar a quantidade. “As prisões estão aumentando, fruto de uma fiscalização mais estratégica. Brevemente, vamos focar os motoristas reincidentes”.

O tenente Nagib Magela Jorge de Oliveira, do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar, pede aos motoristas que não compartilhem informações de blitze em BH. “É um desserviço. Muitas vezes, o infrator e o marginal em potencial podem usar um aplicativo, saber onde está a operação e fazer o caminho inverso, cometendo um ato ilícito ou provocando um acidente”.

Comportamento

O autônomo Bruno Luiz Silva admite que já teve o hábito de conduzir o carro depois de beber, mas decidiu parar. No entanto, de vez em quando, faz algumas concessões.

“Se você vai a um restaurante num domingo, almoçar com a família, vai tomar uma cervejinha e voltar pra casa. Cada um tem que saber o seu limite e ter responsabilidade para uma sociedade mais segura, menos violenta”, pondera.

Uma esteticista, que prefere manter o anonimato, também evita guiar o carro sob efeito de álcool. Mas, para ela, não há problema em dirigir quando a pessoa “bebe pouco”. “Para mim, beber pouco são umas três cervejas, porque ainda tenho plena consciência do que estou fazendo, não estou tonta”, diz.

Ela morou muito tempo no Rio de Janeiro e diz que lá as blitz são mais frequentes. “Em BH, já percebi que não tem”.

Acidentes

Mesmo com as novas estratégias, o delegado Anderson Alcântara garante que a blitz tradicional não foi abandonada. “Só no final de semana de 21 a 23 de agosto tivemos 23 prisões de motoristas alcoolizados”, afirma. De acordo com ele, cerca de 90% foram abordados em blitze, e apenas 10% após se envolver em acidentes.

O tenente Nagib afirma que diariamente são feitas até quatro blitze na capital. Elas não têm foco específico na embriaguez ao volante, mas o condutor com sintomas são “convidados” a fazer o teste do bafômetro.

Ponto ao ponto

Fiscalização por pinçamento

Feita pela Polícia Militar. Neste caso, o agente averigua os condutores em situações normais do trânsito, sem todo o aparato de uma operação. Quando percebe um motorista suspeito de estar alcoolizado, ele é abordado pelo policial.

Camuflada

Realizada pelo próprio Detran. Nessa estratégia, os agentes ficam descaracterizados em locais específicos, à noite, próximo a bares e restaurantes, e abordam o condutor que já foi visto bebendo e em seguida vai guiar um veículo.

Zig zag

A PM coloca cones nas vias obrigando o motorista a ter mais destreza para fazer a travessia. O condutor que estiver com a capacidade motora prejudicada pela bebida, automaticamente será identificado pelos agentes de trânsito.

6 motoristas foram autuados na noite de quarta por apresentar teor etílico de até 0,33 mg/l. outro, com nível em 0,54, o que caracteriza crime, foi encaminhado ao detran