O livre consumo de álcool e drogas por crianças e adolescentes no Carnaval de Belo Horizonte acende o sinal de alerta. A facilidade para comprar bebidas e entorpecentes durante a folia abriu caminho para situações extremas. Na noite de domingo, no Centro, por exemplo, um adolescente de 15 anos morreu de overdose por cocaína, conforme a Polícia Militar.

“Nem eu nem nenhum amigo meu tivemos problemas. Bebemos cerveja e catuaba de ambulante e nos bares da Praça da Estação (hipercentro) e ninguém pediu identidade”, contou uma estudante de 15 anos, moradora do Barreiro. Dentre os companheiros de folia da jovem, pessoas de 13 a 17 anos.

Gerente de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde, Alexsander Peres demonstra preocupação. “Percebemos um número expressivo de crianças e adolescentes que se intoxicaram, principalmente por álcool, o que gerou grande demanda nos postos médicos instalados na cidade durante o Carnaval”.

Nos cinco dias de festa, vários atendimentos foram prestados a foliões de 10 a 14 anos nas unidades móveis.

Segundo a prefeitura, os dados de assistência médica a esses casos só serão apresentados nos próximos dias. Em balanço parcial divulgado pelo Corpo de Bombeiros, 54% dos acolhimentos totais feitos pela corporação e pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), de 1º a 5 de março estavam relacionados a ocorrências de abuso de bebidas alcoólicas e drogas. Juntas, as equipes socorreram 568 pessoas no período.
Vale lembrar que o abuso dessas substâncias ainda leva a outras ocorrências que podem ser mais graves. “Traumatismos e lesões, por exemplo. Um impacta no aumento de outro”, observa o gerente da Secretaria de Saúde.

Na terça-feira, das 20h às 23h, a reportagem flagrou dez adolescentes desacordados levados para o posto médico na Praça da Estação; eles teriam ingerido álcool 

Responsabilidades

Alexsander Peres esclarece que o atendimento a menores difere daquele prestado aos adultos. “É preciso acionar o Conselho Tutelar e eles só são liberados pelos pais. É necessário um grande trabalho de conscientização até o próximo Carnaval, para mudar essa situação”.

Associada do Instituto de Ciências Penais (ICP), a advogada Maíra Garcia Dias defende maior fiscalização para punir quem permite crianças e adolescentes a consumir álcool e drogas. “Na rua as bebidas são vendidas livremente. Só dá para penalizar se houver flagrante policial”.
Segundo a especialista, a família até pode perder a guarda do filho, dependendo da situação.

À base de vodca com açúcar

Uma bebida à base de vodca, açúcar e corante foi a sensação entre os foliões que curtiram a festa de Momo na metrópole. O produto estava sendo vendido nas ruas da capital por R$ 5. Porém, três garrafinhas de 500ml eram facilmente comercializadas por R$ 10.

O preço pode ter atraído muitas crianças e adolescentes ao consumo do líquido. Para o gerente de Urgência e Emergência da Secretaria de Saúde de BH, essa faixa etária desconhece os impactos de qualquer bebida no organismo. “O calor e o ambiente superlotado diminuem a resistência deles às bebidas”, comentou.

Coordenadora do curso de enfermagem das Faculdades Promove, Débora Gomes Pinto explica que o consumo precoce dessas substâncias pode interferir no desenvolvimento dos jovens. Ela alerta que a situação pode desencadear problemas no fígado, o que pode levar a um transplante no futuro. “O álcool e a droga provocam até alterações neurológicas. Muitos acham que não, mas o álcool é dependência química”, reforça.

Conscientização

Para evitar esse cenário, Beatriz Bermudez, integrante do Departamento de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), defende que a conscientização dos menores seja feita em campanhas durante todo o ano e não só em períodos de festa. 

A especialista explica que, com base em estudos da entidade, o álcool está relacionado às três principais causas de óbitos entre adolescentes no país: homicídios, acidentes de trânsito e suicídio.

Nesse contexto, a médica explica que a família tem papel fundamental para prevenir o consumo de álcool entre os filhos. “A oferta é muito grande. As campanhas publicitárias vendem a bebida como algo prazeroso, capaz de trazer felicidade. As famílias precisam intervir mostrando os riscos à saúde e o efeito negativo”, opina.

Fiscalização

De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte, a fiscalização do consumo de álcool e drogas por crianças e adolescentes cabe ao Juizado da Infância e da Juventude. Já os ambulantes flagrados vendendo bebidas a menores podem perder a permissão para comércio durante o Carnaval.

Por meio de nota, a coordenadora do Comissariado da Vara da Infância e Juventude, Denise Pires, informou que, durante o Carnaval de 2019, designou, para cada dia de festa, três equipes por turno (tarde e noite), que trabalharam em conjunto com as polícias Civil e Militar e PBH. Os agentes atuaram nos pontos de comando e nas unidades médicas instaladas para atender aos foliões.

Ainda segundo Denise, os adolescentes embriagados, após liberação médica, foram entregues aos pais ou responsáveis legais, e foram orientados sobre a situação e responsabilidades. Os números de autos de infração e apreensões de jovens ainda estão sendo contabilizados.

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde informou que realiza ações de promoção da saúde e prevenção ao uso de tabaco, álcool e outras drogas por meio dos programas Saúde na Escola e do Controle do Tabagismo, em consonância com a Política Estadual de Promoção da Saúde.