O número de passaportes emitidos pela Delegacia da Polícia Federal em Governador Valadares, no Leste do Estado, aumentou 30% nos últimos dois meses. O crescimento aponta para um novo boom na emigração de valadarenses e moradores da região atraídos pela alta do dólar. A perspectiva de ganhar mais dinheiro também leva emigrantes a se arriscarem na perigosa travessia ilegal em busca do sonho americano. Uma viagem clandestina pelo deserto do México chega a custar R$ 60 mil.

E é essa clandestinidade que dá o termômetro do fenômeno na região. Na maioria das vezes, a viagem é mantida em segredo e um amigo ou parente só descobre depois que uma foto é postada no Facebook. Ou ele “desaparece”.

Foi o que aconteceu com o vendedor de roupas R.P.D., de 40 anos, que saiu de casa, no Vila Bretas, há duas semanas levando na bagagem uma dívida de U$ 16 mil com coiotes. Como garantia, deixou um carro. Até a última segunda-feira ele não havia chegado ao destino pretendido.

Planos

“E como tem gente sumida por aqui”, brinca o comerciante Bruno Santos, de 30 anos, amigo do vendedor de roupas. Santos consegue contabilizar cerca de 30 conhecidos que emigraram. “Com o dólar nessa altura, o negócio é aproveitar para ganhar uns trocados e fazer um pé-de-meia. Eu também vou”, revela.

O desejo do comerciante é ampliar o pet shop. “Mas vou tentar o visto porque a viagem clandestina é cara e muito perigosa. Eu tenho família”, observou.

O delegado da Polícia Federal Cristiano Campidelli não descarta, mas alega não ter como relacionar o crescimento na emissão de passaportes à valorização da moeda americana. “Aumentamos o número de funcionários do setor”, destacou.

Fenômeno

Pesquisadores estão atentos ao surgimento de um novo boom emigratório na região Leste de Minas. Estima-se que 40 mil dos 260 mil habitantes de Valadares estejam no exterior. Porém, Sueli Siqueira, professora na Universidade Vale do Rio Doce (Univale), afirma que o assunto precisa ser tratado com cautela.

Ela lembra que o fenômeno emigratório em Valadares teve início na década de 1960 e se intensificou 20 anos depois, quando centenas de moradores da cidade e municípios vizinhos deixaram a região em busca do “eldorado”. Esse fluxo migratório modificou o paradigma da cidade e, atualmente, emigrar faz parte da cultura regional.

Pesquisas iniciais apontaram que todos tinham a perspectiva de ir, ganhar dinheiro, investir em algum empreendimento e retornar ao Brasil. Mas a partir de 2008, quando a crise no setor imobiliário atingiu os EUA e um número significativo de brasileiros retornou ao país de origem, esse cenário mudou. Ela acredita ser esses antigos emigrantes os mesmos que que pretendem voltar ao estrangeiro. Dessa vez, porém, para manter o padrão de vida que conquistaram.

“Essa mobilidade humana nunca acabou, apenas assumiu nuances diferentes ao longo do tempo em razão das mudanças econômicas, sociais e políticas”, enfatiza.

A pesquisadora lembra ser necessário analisar as fases desse movimento que sempre estará presente na agenda contemporânea e sempre instigou estudiosos do mundo inteiro. “Todos os anos recebemos especialistas de várias partes do mundo interessados em descobrir o que motiva a emigração nesta região”.

Nos últimos dois meses, o número de passaportes emitidos pela Polícia Federal (PF) em Governador Valadares passou de 90 para 120 documentos