GOVERNADOR VALADARES- Um aposentado, que se identificou apenas como Antônio, de 72 anos, se acostumou com as cenas de sexo e consumo de drogas na calçada em frente à casa onde mora com a mulher, numa das ruas mais movimentadas da região do Mercado Municipal, na área central de Governador Valadares, no Leste de Minas.

Não por acaso, o lugar foi batizado pelos próprios moradores de “cracolândia”. Quase que diariamente, o aposentado precisa lavar a calçada, que é usada pelos usuários de crack para fazer as necessidades fisiológicas.

“Usam drogas sem medo de serem flagrados pela polícia. É um absurdo o que acontece aqui todos os dias”, denuncia o aposentado, admitindo ter medo de sair de casa à noite, devido às constantes ameaças de assalto. “Eles abordam quem quer que seja pedindo dinheiro. Se não der, avançam para roubar”, desabafa Antônio.

Geralmente, o consumo é feito em grupos, nas calçadas debaixo das marquises ou em lotes e construções abandonadas. Para driblar a fiscalização da polícia, os moradores de rua migraram para as vias onde não foram instaladas câmeras do programa Olho Vivo da Polícia Militar.

Uma usuária diz que a pedra de crack é vendida a R$ 5 e para alimentar o vício faz programa por até R$ 10. “Não preciso roubar para comprar a minha pedra. Não mexo com ninguém. Moro na rua há dois anos, porque fui expulsa de casa pelo meu padrasto”, relata.

Desafio

A ação dos moradores de rua desafia a polícia, que há pouco mais de dois anos, em parceria com a Prefeitura, Ministério Público (MP) e Conselho Municipal de Segurança Preventiva, criou uma força-tarefa para combater o consumo de drogas e a prostituição nos prostíbulos que funcionavam nas imediações do Mercado Municipal.

Por meio de ações e liminares expedidas pela 5ª Vara Cível da cidade, uma casa foi demolida e outras três interditadas. Na época, foram registradas 32 ocorrências de apreensão de drogas, sendo 41 buchas de maconha, 311 pedras de crack, 26 papelotes de cocaína e três quilos de pasta base de cocaína.

Migração

O problema é que o crime migrou. Não é mais praticado às vistas da comunidade e da polícia. A ação transferiu-se para as calçadas e lotes vagos, facilitando o acesso às crianças e adolescentes.

“Nos finais de semana fico na esquina de casa esperando minha esposa voltar da igreja. Está muito perigoso andar nas ruas, tomadas pelos usuários de drogas”, reclama o pedreiro Willian Cardoso, de 48 anos.

“O número de pessoas usando drogas nas ruas tem aumentado. Quando a polícia passa, o grupo de usuários de drogas se separa, mas depois volta a se reunir”, conta.