São diversas as motivações para que famílias indígenas inteiras deixem a terra de origem e venham tentar a sorte em Belo Horizonte. O jovem Raiocoã (nome de “branco” Wender Lima de Souza) abandonou há seis meses a aldeia Coroa Vermelha, no Sul da Bahia, para morar na capital mineira.

Segundo ele, falta de tudo na comunidade. “Não tem médico, emprego nem energia elétrica. E a disputa pelas terras indígenas nos impede de plantar e caçar”. “Não sei até quando vou ficar em BH, mas outros jovens, filhos dos parentes que ficaram na aldeia, já planejam se mudar para a cidade, também em busca de uma vida melhor”, diz outro rapaz, Aripochê, agora chamado João Vitor.

Os pataxós não perderam o contato com a aldeia. “A cada 15 dias, vamos lá buscar mais produtos artesanais para vender”, explica Sucupira ou Willian Lima de Souza.

Segundo os índios, a falta de apoio do poder público às tribos vai provocar uma migração ainda maior para a capital, esvaziando as comunidades.

“Não tem como viver isolado, sem saúde e educação”, diz um pataxó que preferiu não se identificar e vendia artesanato perto de um supermercado na região hospitalar, na sexta-feira.

Segundo o sociólogo, antropólogo e cientista político Leônidas Valadares Viegas Lopes, a prática de deixar a família começou com o homem do campo, que saiu da roça para a cidade. Agora, caberia a firmas privadas e ao setor público se sensibilizar e promover o ingresso dos índios no mercado formal de trabalho.

“O artesanato se torna a única alternativa de sobrevivência. Mas, sem dinheiro para se manter na cidade grande, muitos índios se tornam moradores de rua. Às vezes, o dinheiro não dá nem para comer. As mulheres não têm com quem deixar os filhos, que ficam em situação de vulnerabilidade ao acompanhar a família”.