Flagrantes de desrespeito aos ciclistas são frequentes nos 74 quilômetros de pistas exclusivas da capital mineira. Sem a menor cerimônia, motoristas invadem, param ou estacionam os veículos no espaço reservado às bikes. No que depender apenas da fiscalização, as infrações, porém, devem continuar. Em média, apenas um condutor é multado por dia após cometer as irregularidades.

A subnotificação foi comprovada nesta segunda-feira (11) pela reportagem. Bastaram cerca de duas horas rodando por diferentes regiões de Belo Horizonte para constatar vários exemplos de ciclistas disputando o espaço reservado com os carros.

O problema recorrente, vivido por milhares de pessoas que usam as “magrelas”, integra a pesquisa “Descobrindo como #Bhpedala”, elaborada pela associação BH em Ciclo, que tem apoio do Hoje em Dia. Os dados, ainda em fase de análise, serão enviados aos órgãos públicos. “Falta educação ao motorista e a fiscalização é muito falha”, resume o bancário Vinícius Mundim, de 32 anos. Ele é um dos voluntários do BH em Ciclo.

Desrespeito é comum nas faixas exclusivas, mas multas são praticamente nulas

Flagrantes

Na avenida Augusto dos Anjos, bairro Rio Branco, em Venda Nova, é comum ver ciclistas que precisam ir para o meio da rua mesmo estando na ciclovia. No local, há várias lojas, que atraem elevado número de automóveis. Muitos motoristas estacionam nas faixas exclusivas ou simplesmente param com a luz do pisca-alerta ligado.

“Parei rapidinho, mas já estou saindo”, alegou um condutor. “Até deixei um espaço para a bicicleta passar”, acrescentou o homem que não quis se identificar.

Além disso, caminhões ocupam toda a ciclovia ao realizar a entrega de produtos. “Cortaram as vagas de estacionamento depois que criaram as ciclovias. Não há espaço para carga e descarga, por isso não há alternativa”, disse o comerciante Gleison Mendes.

Próximo dali, na rua Ministro Oliveira Salazar, no bairro Santa Mônica, também em Venda Nova, a situação não é diferente. Embora o local seja residencial, motoristas também desrespeitam as lei.

Para quem pedala na região resta se arriscar. “Tem que ir para o meio da rua e isso é ruim. Há sinalização bem clara e ela deveria ser respeitada”, criticou o funcionário público Claudinei Caetanos, que anda de bicicleta diariamente na avenida Augusto dos Anjos.

Desrespeito é comum nas faixas exclusivas, mas multas são praticamente nulas

Divisórias inibem infrações, mas ciclistas cobram mais educação dos motoristas

Na região Centro-Sul o desrespeito aos ciclistas também é comum, mas menos frequente. Por lá, a maioria das vias para bicicletas são separadas do restante da pista por meios-fios, e não apenas por faixas pintadas na rua.

Para o membro do grupo Bike Anjo BH, Augusto Schmidt, a barreira física evita que motoristas invadam as ciclovias ou estacionem no espaço. Porém, ela não deveria fazer a diferença. “Neste caso, vale a conscientização do motorista. Se ele não quiser respeitar, não será o obstáculo que irá impedi-lo. As pessoas têm que entender que o ciclista também faz parte do trânsito e respeitar a ciclovia como um espaço reservado”, salientou.

Segundo a BHTrans, a ciclovia pode ser implantada tanto na pista de rolamento, segregada dos veículos, quanto em cima do passeio, também separada do trecho para pedestres.

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece que a segregação pode ser feita com vários materiais – de tachões de sinalização até blocos de concreto. A escolha é feita em função do volume de tráfego de forma a garantir a segurança.

Segundo a Gerência de Educação para a Mobilidade da BHTrans, a empresa desenvolve programas educativos de conscientização. As ações são dirigidas a motoristas e ciclistas com o “objetivo de sensibilizá-los para o cumprimento das normas de trânsito”.

A Guarda Municipal é o órgão responsável por fiscalizar e multar motoristas que desrespeitam a ciclovia. De acordo com informações da assessoria do órgão, os agentes realizam a fiscalização e, se flagrado, o condutor será autuado. No entanto, não informou quantas multas teriam sido aplicadas neste ano.