A riqueza do Vale do Jequitinhonha não é representada apenas pelo artesanato, música e literatura local. As próprias palavras e expressões utilizadas pela população no dia a dia carregam consigo muito da diversidade cultural e histórica do Norte de Minas Gerais.

Por isso, parte desse vocábulo próprio de quem vive nas áreas rurais do Jequitinhonha foi reunido em um dicionário, com mais de mil verbetes do dialeto falado pelos moradores.

A obra é resultado do estudo da professora da Faculdade de Letras da UFMG Carolina Antunes que, entre os anos 1980 e 2010, visitou a região por diversas vezes. “Com uma equipe, gravei e transcrevi as conversas dos moradores. Depois, montei um banco de dados com alguns termos e frases”.

Uma das principais particularidades linguísticas que ficaram evidentes foi o conservadorismo. Segundo a professora, palavras do século 13 continuam sendo usadas com frequência na área rural do Jequitinhonha, embora tenham sido substituídas por outros termos na maior parte do país.

A palavra “afogão”, por exemplo, que veio da palavra “afogo” e tem o mesmo sentido de afogamento, ainda pode ser ouvida com frequência no Vale.

Há também casos de neologismos (fenômeno referente à criação de palavras) e termos que, conhecidos quando isolados, formam expressão típica da região se estão juntos. “’Bom sem base’ designa algo excelente, formidável”, explica.

Embora a tendência seja de, aos poucos, o “jequi-tinhonhês” desaparecer por influência da urbanização e globalização, Reinaldo Martiniano, professor da UFMG, que fez pesquisas sobre o local, ressalta a importância de um trabalho que guarde a memória do Vale do Jequitinhonha. “A diversidade cultural de lá passa despercebida para muita gente, que reconhece a região apenas pela pobreza e pela seca. Essas expressões, de certa forma, mostram um pouco do outro lado do Jequitinhonha. O vocabulário traduz a maneira própria de pensar o mundo de quem vive naquela terra”.