Em uma quinta-feira aparentemente comum de novembro, Diogo Cunha seguia sua rotina de diretor de cinema e TV no Rio de Janeiro enquanto, a 420 km dali, Mariana e distritos próximos viravam palco da maior tragédia ambiental já registrada no país. O rompimento da barragem de rejeitos da Samarco levou embora vidas, sonhos, uma comunidade inteira, o rio.

Não demorou para a triste notícia ganhar o mundo. Chocado, alguns dias depois o cineasta embarcou numa viagem que começou na capital mineira, passou pelo Espírito Santo e terminou no epicentro da tragédia. As histórias e imagens que registrou pelo caminho vão virar documentário.

Ironicamente, o trajeto iniciado no último dia 11, seis dias após o rompimento da barragem, foi percorrido no Trem da Vale, uma das empresas controladoras da Samarco. Na cabeça, muitas perguntas: o que realmente havia acontecido? Como estariam as pessoas afetadas pelo mar de lama? A câmera na mão buscava captar as respostas, ajudar como fosse possível, compartilhar experiências.

A singela curiosidade de Diogo, ainda no Trem da Vale, espreitando pela janela ao tentar ver as primeiras paisagens do rio Doce, dá ideia do tamanho da surpresa dele frente ao que veria dali por diante. A imagem do curso d’água quase seco, tomado pela lama densa, foi impressionante. “A lama vermelha é muito espessa e poucos veios de água correm. Tristíssimo”.

Sequência

De Valadares a Conselheiro Pena, Diogo seguiu viagem pedindo caronas e dicas de amigos, apenas com a vontade de contar aquela história, de modo diferente do apresentado até então pela imprensa. Ele não é repórter, não quer ganhar nada com a exclusividade do que registra. Por isso, a conclusão do trabalho deve surgir de maneira natural, como o curso que segue a empreitada.

O primeiro contato do cineasta com as reais consequências da tragédia ambiental se deu em Conselheiro Pena, próximo do local onde índios Krenak protestaram por dias, impedindo a passagem do trem. “Foi aquele momento ilustrativo: você no trem gerido pela empresa que causou o desastre e, de repente, ouve uma mensagem dizendo que o trem foi parado por um ato de vandalismo”, afirma, questionando o termo utilizado pela companhia para definir o protesto.

Mais tarde, na visita à aldeia, aprendeu que o Doce é mais do que um rio para os índios. “Os Krenak estão sem água, mas também sem parte de seus espíritos. Na hora de fazer as imagens, foi bem impactante, porque era quase pôr-do-sol...índios sentados em um trilho, com fumaça subindo, montanhas ao fundo”, relembra.

Cidade grande

Em Governador Valadares, moradores levaram o cineasta a conhecer melhor o rio Doce, onde teve de navegar pela lama com ajuda de um morador ribeirinho. A dificuldade de se mover mostrava a amplitude da devastação.

Seguindo pelas margens, Diogo conseguiu se adiantar à lama e chegar a Colatina (ES), antes que a destruição por lá chegasse. Flagrou moradores unidos em uma operação para resgatar peixes, lagostas e tartarugas. “A riqueza da operação é um gesto emocionante. Uma corrida contra o tempo”.

Cenas exclusivas de Mariana retratam dimensão dos estragos

O cineasta Diogo Cunha, que nunca havia feito algo tão longo quanto essa viagem, agora está em Mariana, ponto final antes de retornar ao Rio de Janeiro. Na cidade, pretende registrar imagens dos distritos atingidos e colher depoimentos. Sensível ao assédio sofrido pelas pessoas desabrigadas, não quer abordar diretamente nenhum morador.

“Não vou buscar depoimentos, mas, se acontecer voluntariamente... estou adorando conversar ultimamente”, brinca. Desde que saiu do Rio de Janeiro, Diogo sabia que encontraria um cenário triste e comovente. No entanto, não imaginava que se enriqueceria tanto com a experiência.

As imagens captadas por ele, muitas delas exclusivas, retratam a dimensão da tragédia irradiada a partir de Mariana, e como ela atingiu cada pessoa em sua simples rotina. Desde uma comunidade indígena que cultua o rio (os Krenak) a uma dona de casa sem ter como beber um copo d’água. Dentre tantos momentos vividos, Diogo testemunhou o salvamento de animais, uma cidade sedenta de água e o caos instalado em Governador Valadares, com preços elevados de água mineral.

Viu a lama chegar a Itapina e se aproximar de Colatina (ES). Conversou com a população ribeirinha, pescadores e terminou por conhecer os desabrigados que tiveram sua cidade varrida pela lama. Imagens que certamente não serão eternizadas apenas através de sua lente.

Sobre o rumo que pretende dar a todo esse material, Diogo continua sem definição. Um documentário certamente virá, mas as histórias que ele contará, na verdade, são muitas. Não é apenas sobre uma tragédia, ou um desastre ecológico. Como ele próprio diz, não foi um trabalho apenas para registrar imagens e mostrá-las.

“Com o tempo, percebi que é preciso uma reflexão sobre como Minas teve seu crescimento baseado na mineração e, ao mesmo tempo, como isso pode levar à destruição aquilo que o estado tem de melhor”.