Foto álcool gelA necessidade de higienizar todos os produtos comprados passou a fazer parte da rotina dos brasileiros nos tempos de coronavírus, mas tem provocado também situações como limpar o álcool gel com álcool

Em tempos de pandemia, o inimigo comum uniu as pessoas. E essa união, por causa do isolamento social, acontece pelas redes sociais. E o simples compartilhamento de uma nova realidade para os brasileiros é capaz de produzir um conteúdo que resume, com bom humor, a realidade que todos nós estamos vivendo nesta batalha contra o novo coronavírus.

No seu perfil no Twitter, um rapaz desabafou às 19h24 do último dia 1º de abril: “essa pandemia está me levando a fazer coisas que eu jamais me imaginaria capaz (ensaboar um saco de farofa pronta Yoki)”.

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Assim começou nas redes sociais uma conversa virtual em que as pessoas passram a relatar suas novas realidades no que se refere às compras de supermercado ou sacolão

Não era um trote do Dia da Mentira. E as mensagens a seguir mostram bem o que se tornou a realidade dos brasileiros, preocupados em impedir que o Covid-19 tenha as embalagens das compras feitas em sacolões ou supermercados como o ponto de entrada em nossas casas.

A partir da simples postagem, as experiências compartilhadas se transformaram numa trilha que está entre o humor e a realidade.

“O dia que eu lavei um pacote de pão de forma minha vida acabou”, relatou uma seguidora, que logo abaixo viu outra afirmar: “E passar o pano com a solução de água sanitária na água sanitária? Me senti a Mônica aspirando o aspirador de pó”.

Sua experiência teve resposta no mesmo tom: “Também já passei álcool gel no álcool gel”, afirma outra pessoa.

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No meio da conversa virtual, outra característica deste isolamento social. A troca de experiência entre as pessoas pelas redes sociais. “Passei álcool gel em um tomate”, relatou uma moça. “Socorro KKKK. Hortaliças tem que deixar 10 minutos de molho em solução de cloro, uma colher de sopa para cada litro d’água”, respondeu um rapaz.

Em seguida, a prova de que tudo não passou de um engano mesmo: “Sim, mas estava limpando outras coisas do super e me perdi, quando vi tinha passado, mas foi só em um”, respondeu a seguidora que deu banho de álcool no tomate.

Cuidados

O Hoje em Dia ouviu profissionais de saúde que trabalham com essa realidade diariamente. Em relação ao cuidado com os produtos comprados na rua, eles são legítimos.

“Neste momento de pandemia, um dos ambientes com maior circulação de pessoas são os supermercados. Os produtos que estão ali estão realmente muito expostos à infecção do coronavírus, seja por partículas que as pessoas podem expelir no espirro ou tosse, ou mesmo pela manipulação com as mãos, seja por contato direto entre as pessoas que estão ali também, com uma transmitindo para as outras. A chance de contaminação nesses ambientes é grande”, afirma a nutróloga Fernanda Chierici, que tem recebido muitas mensagens de pacientes com dúvidas sobre o procedimento com as compras.

E Fernanda explica como deve ser a limpeza dos produtos: “O que vem embalado deve ser higienizado com água e sabão, álcool ou o composto de água sanitária com água, que é feito com uma colher de sopa de água sanitária para cada litro de água”.

Frutas, verduras e legumes devem ter atenção maior: “Os alimentos que não têm embalagem, precisam de mais cuidado sim, embora os embalados possam ser fonte de contaminação também. Uma colher de sopa de água sanitária para cada litro de água é o composto para a gente lavar todos eles. Mas é importante lavar folhas, legumes e verduras separadamente, pois assim se evita a contaminação cruzada. Alimentos com casca, é bom utilizar escovinha própria para lavar. As folhas, recomendamos colocar de molho com água sanitária e água”, explica a nutróloga.

Emocional

A conversa descontraída no Twitter deixou até mesmo o lado da higiene e chegou ao emocional, quando uma mulher comentou: “Quais as chances de vencer o Covid-19 e começar a lutar contra o TOC? Eu chego, já viro o sapato e dá-lhe borrifada com álcool. Sem contar que vou tão tensa para o mercado (coisa que amava fazer) que volto praticamente passando mal”.

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“Não se pode dizer que seja um Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), pois as pessoas com essa característica e que têm rituais de limpeza, partem de um pensamento que é absurdo.  Podemos chamar é de Personalidade Obsessiva Compulsiva. Extrapolar na mania de limpeza, mas sem os pensamentos presentes no TOC. Talvez sejam pessoas que não tinham esses traços de uma forma importante, mas agora estão mais identificados por causa do aumento da ansiedade.

Praticamente todos nós temos um traço de personalidade, mas isso não chega a um nível patológico. Estou percebendo que essas pessoas mais perfeccionistas, ansiosas, estão tendo uma reação mais forte nessa nova realidade”, afirma a psiquiatra Kelly Robis.

“A ansiedade, por causa do isolamento social, multiplicou por cem. Chegou a um nível em que as pessoas estão assumindo até papéis de comportamento que parecem ser fora do típico, do normal, entre aspas”, revela a médica.

E assim, em tempos de coronavírus, vai caminhando a humanidade, que quando se dá conta está lavando, com água e sabão, um pacote de farofa pronta.

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