A rotina no Buritis, bairro da região Oeste de Belo Horizonte, possível local de contágio de uma doença misteriosa que matou uma pessoa e levou outras seis para hospitais, começou a mudar. Após a síndrome - que provoca quadros graves de insuficiência renal e alterações neurológicas -, já há relatos de  moradores que evitam comer fora de casa e até frequentar supermercados, além de reforçar cuidados de higiene dos alimentos.

"Não sabemos o que é boato ou que é fake. Então, até que descubram o que provocou essa enfermidade, temos que nos cuidar da forma que é possível", relatou a dona de casa Márcia Oliveira, de 43 anos. Moradora do Buritis, ela estava com o filho, de apenas 2, no Parque Aggeo Pio, na manhã desta quarta-feira (8), mas revelou não deixar o pequeno comer ou beber na rua.

"Trouxe água de casa e tive sorte de não encontrar o moço que vende picolé aqui, porque teria que negar para meu filho. Até que o caso seja esclarecido, todo cuidado é pouco", revelou.

Já a mãe da recepcionista Laura Ribas, de 21 anos, foi um pouco mais radical. "Ela está com tanto medo que não está saindo de casa. Foi convidada para jantar fora ontem com a família, mas não quis ir", contou a jovem.

Quem também mudou os hábitos foi o engenheiro Felipe Machado, de 32 anos. "Deixei de frequentar um supermercado. Vi nas redes sociais que a contaminação poderia ter acontecido lá. Então, por precaução, melhor evitar", disse. No entanto, a relação da doença com estabelecimentos comerciais não foi confirmada pelas autoridades.

Higiene

Diretor da Associação de Moradores do Bairro Buritis (ABB), Francisco Pimentel revelou que tem recomendado aos moradores tomar cuidado com os produtos que ingerem e colocam dentro de casa. "Sempre indiquei que lavem tudo que compram na rua antes de ingerir, por na geladeira e armazenar. Mas essa é uma recomendação que deve ser seguida sempre", falou.

Ele acredita que não há motivos para alarde, apesar da situação ainda não ter sido esclarecida. "As pessoas ficam assustadas, mas acredito que não há motivos para pânico. Temos que aguardar os resultados das investigações", ponderou.

O comerciante Gilmar Henrique da Silva, de 55, que tem um quiosque dentro de um centro comercial, revelou que está mais precavido. "Sempre lavei tudo com muito cuidado, mas, agora, estou usando bucha e sabão", brincou.

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Bairro Buritis é o local mais provável do surgimento da doença

Boatos

Os casos envolvendo os pacientes está cercado de mistérios e levantando rumores na região. O comerciante Matheus Strenzioch, de 32, disse que, desde o início da semana, várias pessoas que frequentam a banca em que ele trabalha sugeriram hipóteses sobre a contaminação. "O povo tem comentado muito, já falaram até que a água teria provocado o mal. Mas tudo ainda é um mistério", declarou.

Há, ainda, alguns moradores que estão alheios ao probelma e outros que disseminam falsas informações sobre a síndrome. Uma mulher ouvida pela reportagem garantiu que todos os doentes são da mesma família e teriam sofrido uma intoxicação alimentar após participarem de uma festa de Natal. Porém, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) afirma que nem todos os pacientes são parentes ou frequentaram os mesmos ambientes.

Pente-fino

Uma força-tarefa, com autoridade de saúde de BH, de Minas Gerais e do Ministério da Saúde, foi montada para tentar desvendar a doença. Os pacientes foram submetidos a uma bateria de exames, mas nenhum foi capaz de revelar o que provocou a síndrome desconhecida.

O que se sabe, até o momento, é que todas as vítimas são homens, moradores do bairro Buritis ou estiveram na área na segunda quinzena de dezembro, época em que ficaram doentes. Apesar do surto, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) afirma que não há motivos para pânico.

Investigação

Os casos começaram a ser investigados no dia 30 de dezembro, depois que o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS Minas) foi notificado da ocorrência de um paciente com de insuficiência renal aguda com alterações neurológicas em BH. No dia seguinte, um segundo paciente foi hospitalizado, em Juiz de Fora, com sintomas semelhantes.

"A partir dessas notificações foi desencadeada uma investigação conjunta do CIEVS Minas e CIEVS BH com o objetivo de esclarecimento diagnóstico e busca de novos casos", explicou a secretaria. Posteriormente, os órgãos de saúde pública descobriram que, em 19 de dezembro, um paciente já havia sido internado com a enfermidade misteriosa.

Após o aparecimento dos casos, a secretaria emitiu uma nota técnica e determinou que todas as unidades de saúde do Estado informem, no prazo máximo de 24 horas, sobre ocorrências semelhantes.

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