Em meio a aparelhos de hemodiálise, cadernos e lápis. Pacientes submetidos ao tratamento no sangue, em Belo Horizonte, também aprendem sobre operações básicas de matemática e interpretação de texto. Há três meses, essa é a rotina de 33 pessoas que passam 12 horas semanais no Centro de Nefrologia do Hospital Evangélico, em Venda Nova. Lá, o grupo aproveita esse tempo para concluir o ensino fundamental, por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Na capital, 87 locais oferecem aprendizado fora do ambiente escolar. O número cresceu 70% em 2018, se comparado ao ano passado, quando eram 51 espaços. A proposta é ampliar ainda mais o acesso a essa modalidade de ensino na metrópole.

Em BH, segundo a prefeitura, são 1.600 alunos matriculados em turmas externas da EJA

EJA Centro nefrologia Hospital Evangélico
Aulas no Hospital Evangélico, em Venda Nova, começaram há três meses

Onde

As aulas são oferecidas em lar de idosos, abrigos, igrejas e até no Mineirão, por meio de convênio com a Secretaria Municipal de Educação. Atualmente, a prefeitura garante professores e apoio técnico-didático para cerca de 1.600 alunos matriculados em turmas externas da EJA.

Professor da Faculdade de Educação da UFMG, Leôncio Soares aprova a iniciativa. Para ele, essa é uma oportunidade para quem, por algum motivo, foi obrigado a interromper o ensino na infância ou adolescência. 

“Há um grande público que tem a vida inteira tomada pelo trabalho ou que não tem facilidade para frequentar as aulas à noite, como mães que cuidam de filhos pequenos. As turmas externas são essenciais para aproximar o estudo dessas pessoas”.

Que o diga o vigilante Pedro Antunes de Souza, de 68 anos, que após seis décadas volta à “escola” sem precisar sair do Centro de Nefrologia. Para ele, as sessões de hemodiálise passaram a ter um novo significado com a EJA.

Antes, ele aproveitava o período na unidade de saúde para dormir. Agora, é tempo de aprender. “Não vou dizer que sou um aluno exemplar, mas um pouquinho de assuntos novos que conheço já faz grande diferença para a mente, é estimulante”.

O auxiliar de serviços gerais José Alves Meira, de 38 anos, já havia tentado voltar a estudar, mas teve problemas em conciliar os horários do trabalho e da escola. A situação só mudou em abril, quando o Mineirão, na Pampulha, começou a ofertar a EJA. Lá, são 12 alunos. “Quando vi que era dentro do estádio, percebi que era uma chance única”, conta ele, que é funcionário do local.

Interessados em participar da EJA podem entrar em contato com a gerência do projeto, por meio do telefone 3246-6667

Transversalidade

Ao contrário do ensino regular, que é voltado também para testes e vestibulares, a EJA é centrada nas experiências dos próprios educandos. Nas turmas externas, essa característica é ainda mais forte, diz a professora Adriana Mansur, da Escola Municipal Dom Orione, que comanda as aulas no Mineirão. “Por mais que haja diferenças de níveis de aprendizagem, eles têm algo que os unifica, que é o trabalho aqui”.

Por ser um estádio que recebe jogos internacionais, as placas de orientação aos torcedores são escritas em vários idiomas. A educadora aproveitou a sinalização, que faz parte do dia a dia dos estudantes, para ensinar inglês. “Em eventos, eles convivem com muitas pessoas de fora do país. Por isso, também aprendem vocabulários que os ajudarão na comunicação com estrangeiros”, conta.

EJA Mineirão
No Mineirão, funcionários do estádio têm aulas quatro vezes por semana

Troca de experiências

A EJA é um modelo de ensino que vai além da sala de aula tradicional, em que os professores, em posição superior, passam o conhecimento para os alunos. O método envolve a troca de experiências entre educador e educando, fazendo com que os dois lados aprendam, como lembra o professor Leôncio Soares, da UFMG.

“O professor reconhece que o sujeito (aluno) também tem conhecimento, e aprende com o que ele traz. Não é porque interrompeu os estudos que é menor do que alguém. Se o aprendizado escolar foi sacrificado, outros saberes se desenvolveram por experiências da vida”, diz.

Professora da Escola Municipal Padre Marzano Matias, em Venda Nova, Rosimeire Cordeiro leciona no Centro de Nefrologia. Essa é a primeira vez em que trabalha fora de uma sala de aula convencional. “Antes, o aluno ia até a escola. Agora, a escola vai até o aluno. Outros docentes me perguntam se é estranho estar em um hospital, com aparelhos de hemodiálise ligados nos estudantes, mas nem vejo as máquinas, só os sujeitos. Estamos construindo juntos essa proposta”, diz a docente. 

Professor da UFMG, Leôncio Soares ressalta que outros saberes desenvolvidos pelo aluno da EJA são levados em conta nas etapas do ensino

Confiante

Depois que começou a cursar o ensino fundamental no Mineirão, a auxiliar de serviços gerais Katia Eulália Nascimento, de 63 anos, diz estar mais segura e confiante até para conversar com desconhecidos. “Sinto mais firmeza, mais liberdade de falar com as pessoas. Não tenho aquele medo de dar umas tropeçadas, falar bobagem ou algo que não tenha relação com o assunto. Mexeu muito com a minha autoestima”.

O momento mais marcante para ela, desde que voltou a estudar, é quando chega das aulas, se senta com os filhos, comenta sobre a escola e percebe que eles estão orgulhosos do progresso da mãe.

Katia garante que não quer parar por aí. Após finalizar o fundamental, a mulher pretende concluir o ensino médio e se formar em técnica de enfermagem.

Ensino médio

Parte dos alunos que concluem o fundamental por meio da EJA, fora dos colégios em BH, procura continuar os estudos e ingressar no ensino médio. Embora a rede estadual – responsável por essa etapa escolar – ofereça a modalidade nos colégios, não há turmas externas. Essa é a principal barreira que as pessoas encontram na hora de dar sequência ao aprendizado. “Há uma demanda, mas, mesmo com o desejo deles em concluir o segundo grau, os alunos esbarram nesse empecilho”, observa Leôncio Soares.

Questionada sobre a possibilidade de abertura de turmas fora da escola, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) diz não ter informações relacionadas à oferta da modalidade.

Coordenador da equipe de transição do governo de Minas, Mateus Simões afirmou que “o futuro secretário de Educação pode até avaliar essa possibilidade para 2020, mas temos que aguardar”.