O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal porta de entrada de estudantes em universidades brasileiras, teve queda brusca de inscritos em Belo Horizonte. Neste ano, 51 mil pessoas se preparam para as provas, em 21 e 28 de novembro. Número é 48% menor, se comparado a 2020, quando 98 mil belo-horizontinos fizeram o registro para aplicações impressa ou digital.

Queda acentuada acompanha o cenário nacional: 2021 é o ano com menos pessoas inscritas dos últimos 16, com 3,1 milhões de registros. E os motivos podem ser diversos, mas levam a um único ponto: a desigualdade social.

De acordo com um levantamento realizado pela Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação (Semesp), entidade que representa mantenedoras de ensino superior no Brasil, houve queda de aproximadamente 77% no número de inscritos com renda familiar de até três salários mínimos na etapa deste ano.

Queda também entre alunos com isenção de taxa – aqueles que concluíram o terceiro ano do ensino médio em escola pública ou que são bolsistas integrais em instituições privadas. Por outro lado, entre os estudantes que pagaram a taxa de inscrição, houve crescimento de 39,2%.

Segundo especialistas, a pandemia da Covid-19, iniciada em março do ano passado e que deixou estudantes longe das escolas por mais de um ano, pode ter contribuído para o recorde negativo. Mas não teria total responsabilidade, mesmo tendo acentuado o desequilíbrio entre estudantes de escolas públicas e particulares.

“Quando dizíamos que a pandemia ia não apenas aprofundar desigualdades já existentes como criar outras, estávamos falando isso. A pandemia aprofundou as desigualdades escolares, assim como aprofundou o conjunto de desigualdades brasileiras. Maior concentração, maior empobrecimento”, ponderou o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro da coordenação do projeto Pensar a Educação Pensar o Brasil, Luciano Mendes.

Pensamento parecido com o da também professora da Faculdade de Educação da UFMG e Líder do Núcleo de Pesquisa em Desigualdades Escolares, Maria Teresa Gonzaga. “Essa queda vem acontecendo já há alguns anos. E há algumas causas: primeiro uma redução na população do Brasil, mas isso não é o que mais explica. Acho que a dificuldade do acesso ao não pagamento da taxa de inscrição é barreira importante, assim como a suspensão das aulas durante a pandemia, que afetaram muito a população que frequenta as escolas públicas, que demoraram mais a oferecer um ensino remoto”. 

Maria Teresa também acredita que este contexto pode ser desestimulante para quem teve uma preparação deficiente. “Estudantes que deixaram de frequentar as escolas nesses dois últimos anos estão com bastante dificuldade de acompanhar esse momento”. 

Desistência

A estudante Maria Clara, de 17 anos, quer cursar Arquitetura e Urbanismo e investiu em um cursinho preparatório. “Se não fosse por isso acho que eu não faria o Enem”, afirmou, acrescentando que outros colegas decidiram não fazer a prova. “Professores tentando retomar, mas já falaram que não vão conseguir explicar tudo. Perdemos dois anos de ensino. Eu estava no primeiro ano, pisquei o olho e estou me formando”, lamenta. 

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