A reforma do currículo do ensino médio, anunciada ontem, já nasce cercada de dúvidas e promete impactar tanto estudantes e professores – que deverão se dedicar ao estudo e trabalho em período integral – quanto pais e escolas. Para comportar todos os alunos das séries finais da educação básica no contraturno, instituições públicas e privadas precisarão ampliar a estrutura física e o quadro de funcionários. A medida deve implicar em aumento de gastos da União e reajustes de mensalidades dos colégios particulares.

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Longe de ser consenso entre especialistas e profissionais da área, o projeto, apresentado como alternativa ao atual modelo de ensino e que irá alterar completamente a grade a partir de 2017, tem a viabilidade questionada. As mudanças foram propostas em forma de Medida Provisória (MP) e têm 120 dias para serem votadas no Congresso Nacional. O governo federal espera aprovar as alterações até o fim do ano.

A previsão otimista é criticada por educadores, que acusam a União de ignorar problemas estruturais do ensino médio que não serão resolvidos até o início do próximo ano letivo. Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Ocimar Munhoz Alavarse, a flexibilização do currículo “do dia para a noite, sem um diagnóstico profundo das condições do ensino médio”, é equivocada.

A falta de infraestrutura nas escolas públicas e privadas para oferecer ensino integral é vista como um dos principais obstáculos. “Eles acham que tornarão o ensino mais dinâmico e atrativo? A escola não é chata. Ela é pobre, precária. O professor está doente, as carteiras estão quebradas”, afirma Alavarse.

No bolso
Para que os alunos possam frequentar a escola em dois turnos, será necessário dobrar a quantidade de salas construídas e professores contratados, ressalta o diretor do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep), Emiro Barbini. O valor da mensalidade também precisará ser duplicado. “Tudo que aumenta as despesas nas escolas privadas determina aumento de mensalidade, porque elas não têm subsídios”.
 

Aluno

"Juntar várias disciplinas em uma só parece algo ruim. Tenho medo de ver os conteúdos superficialmente, mas também acho que teremos mais tempo livre para estudar" Pedro Campos, estudante do 2º ano do ensino médio


Ele argumenta que a adoção do novo currículo será negativa para uma grande parcela das instituições particulares, já que poderá ocorrer evasão. “O valor cobrado será inviável para muitas pessoas e pode haver essa migração de estudantes, o que fecharia uma grande parte das escolas, provocando desemprego de professores e funcionários”, frisa.

Emiro avalia a reforma como uma medida “violenta e impraticável”. Ele acredita que o texto final não deve ser aprovado da maneira como foi proposto, e estima que será necessário um período de adapt ação de pelo menos dez anos.

Se o cenário para as escolas particulares não é favorável, a rede pública será ainda mais atingida, avalia a presidente do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (SindUTE), Beatriz Cerqueira. A professora argumenta que a mudança se torna impraticável em um momento de corte de recursos para a educação.

“O governo está propondo uma reformulação, mas que condições ele dará para manter o aluno na escola? Com que dinheiro a gente vai fazer isso? É uma grande incoerência. Se ele for investir no ensino médio, temo que haja o risco de tirar verbas de outras fontes, como da merenda, do transporte escolar e do livro didático”, diz.

A Secretaria de Educação de Minas Gerais declarou que ainda está tomando conhecimento da reforma proposta e deve se pronunciar sobre os detalhes da MP nos próximos dias.


Mudanças podem trazer um novo modelo para o vestibular
Com as mudanças na grade curricular e na carga de conteúdo, que passa a ser diferente para cada aluno, a preocupação dos estudantes é com o vestibular. Conteudista, a forma de seleção tende a mudar conforme o novo modelo do ensino médio for implantado. Quem diz é o economista e especialista em educação Cláudio de Moura Castro.

“É necessário alterar as ponderações do Enem. A prova de matemática logicamente passará a pesar mais para engenharia, por exemplo. À medida que mudam o sistema e a natureza do ensino médio, a universidade também muda. Nessa idade, quase todo mundo tem clareza do que gosta mais”, diz.

O grande problema, porém, deve ser a maturidade dos estudantes ao optar pelo caminho que pretendem trilhar. Ainda não está claro se será possível migrar de uma área do conhecimento para outra e qual será o esforço necessário para a troca.

Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Avaliação Educacional da USP, Ocimar Munhoz Alavarse acredita que, da forma como está posta, a medida provisória vai forçar a escolha precoce da profissão e aumentar o índice de reprovação e de evasão nas universidades.
 

Aluna

"Na escola somos forçados a ver matérias com as quais não nos identificamos tanto. Vai ser legal aprender mais conteúdo de exatas, que é a área que mais gosto" Ana Clara Padilha, estudante do 2º ano do ensino médio


“Ao escolher tão novo o que vai seguir, o governo faz os adolescentes precipitarem as escolhas. Aos 15, 16 anos, achamos que nos conhecemos e que conhecemos o mundo, mas a maturidade chega e nos mostra que não é assim. E se o aluno estiver errado ou a cabeça dele mudar? Os efeitos são irreparáveis”.

Aluna do 2º ano do ensino médio no Colégio Arnaldo, Steffany Luciene Alves dos Santos se diz preocupada com esse aspecto da reforma. Nos debates em sala de aula, dúvidas sobre o que fazer se decidirem mudar. “Focando em uma área só, vamos nos alienar ainda mais nas áreas diferentes da escolhida. E se errar no que escolher? Tudo ficará perdido”.

Colega de Steffany, Luiza Vasconcelos teme a retirada de algumas disciplinas. “Matérias como sociologia são as que mais desenvolvem pensamento crítico na gente”.

*Com agências