Apenas 4% dos alunos matriculados no ensino médio em Minas estudam em tempo integral. O Estado tem a quinta pior posição do país na modalidade e está abaixo da média nacional, que é de 10%, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica publicado, ontem, pelo movimento Todos pela Educação. 

Em relação aos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano), a adesão ao tempo integral em território mineiro também está abaixo da média. Enquanto o país alcança 9,6% das matrículas, Minas tem apenas 7%. 

O diagnóstico preocupa especialistas. Professor da Faculdade de Educação da UFMG, Luciano Mendes de Faria Filho afirma que o cenário está diretamente ligado ao problema da desigualdade social. 

Ele ressalta que muitos alunos vêm de famílias mergulhadas em dificuldades financeiras e, diante da necessidade de trabalhar, são impedidos de se dedicarem 100% aos estudos. 

“O tempo escolar de quatro horas diárias, de forma geral, ainda é muito baixo, próximo do que tínhamos no século XIX. Portanto, é essencial fortalecer o ensino integral uma vez que a escola incorporou um conjunto expressivo de novos conhecimentos”, analisa. 

O educador destaca, ainda, que o baixo investimento para que as instituições de ensino se tornem mais atrativas também prejudica o tempo de permanência dos estudantes. “É um espaço que precisa ser muito mais digno. Boa parte das escolas públicas não têm sequer biblioteca, imagine estrutura para outras atividades”, critica Luciano. 

Segurança

O ensino em tempo integral também é importante para manter o aluno longe das drogas e da criminalidade. Quem afirma é a professora de português instrumental das Faculdades Promove e Kennedy, Renata Paula de Oliveira.

Ela defende que, tanto nos anos finais do ciclo fundamental quanto no ensino médio, o estudo no período integral precisa ser incentivado. Porém, ela destaca que os profissionais devem ter mais qualificação. 

“Ainda falta mão de obra qualificada e, sobretudo, incentivo. Hoje, a carreira na docência não é sequer cogitada pelos jovens dada a desvalorização do profissional nas instituições públicas”, critica Renata. 

Alcance

Em Minas, a rede pública estadual tem 3.620 escolas e atendeu - com a educação integral - cerca de 30 mil alunos em 500 instituições no primeiro semestre do ano, segundo informações da Secretaria de Estado de Educação (SEE).

Segundo a pasta, as escolas integrais adotam um currículo que expande a carga horária no contraturno. Dessa forma, os estudantes têm aulas de dança, esportes, entre outras atividades.

Por nota, o órgão informou que um cronograma de ampliação do ensino integral será apresentado hoje à tarde, em coletiva na Cidade Administrativa. 

Carga horária estendida propicia conforto e segurança à família 

A experiência da educação integral é positiva não apenas para alunos, mas também para os responsáveis por eles. Em Belo Horizonte, mães de alunos do Colégio Municipal Marconi, no bairro Gutierrez, na região Oeste da capital, afirmam que a carga horária estendida propicia mais conforto e segurança à família. 

A secretaria executiva Renata Santos, de 48 anos, comemora a possibilidade do filho David William, de 12, passar o dia inteiro na escola. “É seguro para ele, que não fica sozinho e interage muito com outras crianças”, diz. “Além disso, tenho a possibilidade de trabalhar mais tranquila”, afirma. 

É o que também afirma Gislene Cardoso, mãe do aluno Gabriel Brito, de 9 anos. “Meu filho entra na escola às 7h e sai às 16h20. É muito importante para que eu consiga ter meu emprego. Se não houvesse educação integral, não teria com quem deixá-lo nem poderia trabalhar”, explica. 

De acordo com a Secretaria Municipal de Educação (Smed), Belo Horizonte tem, hoje, 53.080 vagas para educação integral e todas estão preenchidas. O órgão informou que as 178 escolas do município oferecem a “perspectiva pedagógica para ampliação do tempo e das oportunidades de aprendizagens aos estudantes”.

De acordo com a pasta, são oferecidas oficinas de acompanhamento pedagógico, cidade, patrimônio cultural e educação, esporte e lazer, direitos humanos e cidadania, arte e cultura, leituras na educação integral, prevenção e promoção à saúde, investigação no campo das ciências, educação e diversidade, uso de mídias e, ainda, educação socioambiental.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Educação (MEC) não se posicionou até o fechamento da edição.