Quinze mil estudantes que tinham abandonado os estudos voltaram para as salas de aula em Minas. Eles contarão com turmas de reforço para melhorar o processo de aprendizagem. A informação é da secretária de Estado de Educação, Julia Sant’Anna, doutora em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e mestre em Estudos de Desenvolvimento pela University of London. Além da evasão escolar, a titular da pasta fala sobre o ensino em tempo integral, fusão de turmas e o polêmico projeto de lei Escola Sem Partido.

Confira o vídeo com os destaques da entrevista: .

Recentemente, o Estado anunciou a reestruturação do ensino médio e o fechamento de algumas turmas em escolas. Por quê?

A fusão de turmas é resultado de uma ação muito maior que envolveu, principalmente, atenção à lotação de salas de aula. Ela ocorreu somente onde havia condições. Fizemos um trabalho de análise, de possibilidade de fusão em 225 escolas e de desmembramento, que é a criação de novas salas, em 679 unidades. Esse processo gera melhores condições, tanto de ensino dos professores, quanto de aprendizagem dos estudantes. O Estado tem o limite definido por lei de no máximo 40 alunos. Nosso compromisso é ter esse máximo.

Mas isso não prejudica o aprendizado?

O mais importante é a aprendizagem. Essas salas de aula foram fundidas também porque a gente percebeu alunos que tinham evadido e retornaram à escola com o programa de Busca Ativa. Recentemente, a Secretaria de Educação conseguiu trazer de volta para as classes 15 mil estudantes. Serão criadas turmas de reforço escolar para dar condições de aprendizagem e, para isso, é importante que haja espaço.

Júlia Sant'anna

Como esse processo de retorno de estudantes que evadiram ocorreu?

Nós geramos, para cada escola, um relatório nominal de quais eram aqueles alunos e deixamos o diretor, que bem conhece a comunidade, fazer essa busca. Houve alguns casos que contaram com parcerias da comunidade, como rodar carro de som no município, buscando trazê-los, sempre com esse discurso de que eles fazem falta. Esse momento de retomada dos estudos é muito importante. Temos casos emblemáticos de estudantes que estavam em processo de depressão e que conseguem resgatar a autoconfiança a partir do momento em que alguma pessoa da escola liga, falando o nome dele, e pedindo para ele voltar, porque faz falta. O impacto não é só na aprendizagem, mas também na vida, na autoestima.

Os alunos desistem por conta de questões psicológicas, mas também existem outros aspectos que os afastam da escola, como a pobreza e a necessidade de trabalhar ainda cedo. O que a secretaria tem feito nesse sentido?

Há uma crítica bastante importante da sociedade, sobre a qual a gente concorda, que o ensino tem que ser mais interessante. Se o ensino é atrativo, o jovem entende que é importante concluí-lo. É essencial que a educação faça sentido para ele. Faremos, em breve, um anúncio do tempo integral de ensino médio, e entendemos que esse aluno se torna mais interessado quando a formação está vinculada à educação profissional, onde ele vê condições de sair dessa etapa com algum diploma que já o permita entrar no mercado de trabalho. Isso vai criar mais atratividade também.

Atualmente, há mudanças no currículo devido à reforma do ensino médio. Como anda esse projeto em Minas? Todas as escolas da rede ofertarão os cinco itinerários formativos (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Sociais e Formação Técnica e profissional) no contraturno?

É um processo que está em implementação. Ainda estamos construindo, mas vai começar onde há maior número de escolas, com o itinerário já direcionado para uma formação mais profissional. Temos anúncios próximos de matrícula para escolas em que será feito o trabalho com educação profissional. Estamos ainda formando os currículos a partir da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do ensino médio e temos até 2022 para concluir.

Haverá treinamento para os professores?

Iniciamos formações com certificação para cada um dos professores que contemplam, inclusive, equipes dos municípios. O processo é a distância e deve ser feito durante o tempo de planejamento, porque seria muito oneroso também tirá-los de sala de aula, mas haverá um momento em que será feita a formação em polos presenciais.

No início do ano, 81 mil alunos estudavam em tempo integral no ensino fundamental. Essas vagas foram fechadas e agora estão sendo, gradualmente, reabertas. Por que houve essa redução?

O tempo integral que a gente defende é uma turma única, em que os alunos ficam de 7h até 17h juntos e que há expectativa da progressão deles para os anos seguintes. Eles têm a frequência contabilizada em todo o ano letivo. O que havia na rede era uma atividade complementar de contraturno, oficinas, em que o estudante poderia ou não ir e a frequência na parte da tarde não era contabilizada. Primordialmente, não era uma questão financeira. Nós entendemos que ele não era como deveria ser, demos uma parada para organizá-lo e agora temos efetivamente um tempo integral. Nós oferecemos 30 mil vagas na primeira metade do ano, agora ampliamos mais 34 mil. Ou seja, um total de 64 mil no segundo semestre. E temos um compromisso com a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) de fazer a oferta regular de todas as vagas até o início de 2020.

Como está organizado agora? Quais foram essas mudanças?

Do 6º ao 9º anos, o estudante tem a garantia de que estará em tempo integral. O espaço da atividade complementar, no contraturno, está muito voltado a fortalecer o aprendizado em relação à BNCC. Teremos oficinas para reforçar os conceitos que foram aprendidos na parte teórica, como de matemática e fotografia, mas elas requerem frequência e cuidado metodológico. O contraturno não é apenas uma atividade lúdica, é importante que ela seja leve também para que seja interessante, mas a construção da metodologia é integrada.

São vividos atualmente momentos de tensão e conflitos políticos no país e isso pode refletir nas escolas. Como essa administração vê e lida com isso?

Acredito que as mais diversas fontes que criticam o que podemos chamar de ‘doutrinação’ (entre aspas, reforça a secretária), em sala de aula, têm um ponto em comum: ‘puxa, só falam um lado da história’. Estamos em uma situação muito esgarçada, mas tendo a acreditar que quanto mais próximos da realidade de cada escola, mais temos condição de apoiar professores para trabalharem fatos e diferentes visões e abordagens dele. Assim, tornaremos a educação mais plural e permitiremos que o aluno desenvolva sua capacidade de interpretação a partir das ferramentas que são dadas. Ele deve saber diferenciar uma opinião de um fato.

Qual a posição da senhora sobre o projeto Escola sem Partido?

É um tema que ainda está muito polarizado, mas que a gente acredita que a sociedade vai buscar esse caminho. Enquanto isso, o que conseguimos fazer no Executivo é dar mais celeridade às apurações de algumas questões que são, sim, delicadas. Nós recebemos denúncias de situações mais críticas em sala de aula, em que há relatos de ‘doutrinação’. Isso precisa ser abordado. Têm casos muito delicados, a sala de aula não é um palanque. 

Júlia Sant'anna

Esse professor pode ser punido?

Se ele faz campanha dentro de sala de aula? Tem que ser apurado. O servidor deve ser punido em um ato muito bem apurado, em situações que são muito delicadas, e não estou falando da ‘doutrinação’ política. É preciso uma boa análise em assuntos sensíveis que são relatados à administração pública. Mas isso não é punitivo, é para dar segurança às famílias.

Alguma mudança prevista para as escolas nos próximos dias?

Educação roda bem se tem a parte pedagógica, infraestrutura e boa formação de professores. Em breve, teremos um anúncio muito importante sobre reforço escolar. Iremos criar um programa muito expressivo. Não será um reforço tímido. Há uma urgência de melhorar isso. Estamos identificando quais são as escolas em que há maior necessidade e quanto temos de recurso, para organizarmos as prioridades. Além disso, estamos retornando com o adicional de valorização de professores da educação básica, de 5% na remuneração. No início do ano começamos o programa Mãos à Obra nas escolas, com R$ 21 milhões, atendendo a 132 unidades, e faremos um segundo anúncio de investimento daqui duas semanas. Temos expectativa de que, antes do fim de 2019, haja ainda mais valores. Esses recursos para a próxima fase serão iguais ou um pouco superior à anterior.