Não é o amor do brasileiro pelo futebol que deve afastar as multidões dos protestos deste ano. Para especialistas, as eleições, em outubro, são as responsáveis pela dispersão percebida nos movimentos de 2014. Como os atos são, na grande maioria, liderados por sindicatos e partidos políticos, muita gente está preferindo não sair de casa para engrossar as manifestações ou abraçar as demandas apresentadas.

A avaliação é do cientista político e professor da UFMG Fernando Massote. “A eleição que se aproxima é a principal diferença entre as manifestações deste ano e as de 2013. Em busca de espaço, muitos sindicatos se aproveitam deste momento para tomar a frente das mobilizações”.

Como boa parte das entidades sindicais é atrelada a partidos políticos, os grupos acabam sendo vistos com desconfiança pela população. Segundo o professor, isso torna os movimentos menos vistosos, embora ainda haja insatisfação do povo.

Em 2013, o protesto com maior adesão dos belo-horizontinos, em 26 de junho, contou com 40 mil pessoas. O maior ato deste ano, até agora, reuniu 600 manifestantes em diversos pontos do Centro de BH, em 15 de maio.

Na última quinta-feira (22), servidores municipais e membros do Movimento Tarifa Zero não somaram 50 participantes na mobilização que partiu da Praça 7 e acabou em frente à prefeitura, onde uma parcela do grupo está acampada.

A MG-010 também foi interditada, na última quinta-feira (22), em frente à Cidade Administrativa, por pessoas ligadas às ocupações urbanas da Grande BH.

Resultado

O aparente esfriamento das manifestações, no entanto, não significa que os protestos pré-Copa de 2014 serão ineficazes. Ao contrário, o cientista político Malco Camargos, da PUC Minas, acredita que a presença clara de um líder facilita o diálogo com autoridades.

“Há um ano, chegavam a hostilizar quem levantava bandeira de partido político durante os protestos. Com demandas dispersas, como atender a tantas reivindicações? Agora, tratando-se de sindicatos, a pauta está bem desenhada e a liderança pode ser ouvida e, talvez, atendida”, avalia.

Malco percebe uma tendência de crescimento dos atos nos próximos dias. “É uma janela de oportunidade”, diz. O mesmo ocorreu em outros países que sediaram grandes eventos

Aliás, esse não é o único momento histórico em que o Brasil vive uma onda de protestos, ressalta Ana Paola Amorim, doutora em ciências políticas e professora na Fumec. “Quem fala que só agora o gigante acordou desconhece a história do país. Tivemos as greves pelo fim da Ditadura, o movimento Diretas Já, os protestos pelo impeachment do Collor”.