O Carnaval de BH cresceu e com ele a necessidade de pensar os próximos passos. Uma responsabilidade de não apenas quem faz a festa, mas sobretudo dos gestores da cidade e de quem é responsável por prezar pela segurança do público.

Neste ano, dois conflitos pontuais foram suficientes para chamar a atenção de legisladores e causar indignação, não apenas nos foliões envolvidos diretamente.

Bombas de gás e efeito moral, tiros de borracha, tapas, chutes, ameaças e agressões verbais foram provocados pela Polícia Militar - e registrada por diversos foliões. As publicações ganharam as páginas sociais e em poucas horas foram os assuntos mais comentados e compartilhados na rede.

Entenda

Os atos de violência marcaram o encerramento do desfile do Bloco da Bicicletinha na noite de 4 de fevereiro (pré-Carnaval). Na noite seguinte, 5 de fevereiro, foi a vez dos integrantes do bloco Tchanzinho Zona Norte entrarem em confronto com a PM.

Por isso, e com o intuito de debater a violência policial na capital, a Comissão de Direitos Humanos e de Defesa do Consumidor da Câmara de Vereadores de BH realiza audiência pública nesta terça-feira (23), a partir das 13h30, no Plenário Helvécio Arantes (avenida dos Andradas, 3.100, Santa Efigênia).

Autor do requerimento para a audiência, o vereador Pedro Patrus (PT) afirma que “o cidadão espera que a polícia haja como um órgão de segurança gerenciador de crise e não de repressão a manifestações culturais”.

Momentos de terror

O barista Renato Melo, de 27 anos, estava no Bloco da Bicicletinha a poucos metros da viatura que atropelou um dos ciclistas.

"Eu quase fui atropelado também por não conseguir sair do caminho do carro, correndo o risco de perder minha bike ou ser gravemente ferido, mas consegui escapar. Meu irmão foi agredido e teve o celular destruído simplesmente por estar filmando o que acontecia", recorda.

Durante o encontro desta terça, o barista espera que a versão da PM seja devidamente contestada.

"Se houver algum desdobramento dessa audiência, que seja no sentido de se reparar os danos materiais e as agressões cometidas contra os foliões e que os policiais respondam na Justiça no mínimo por tentativa de homicídio contra o jovem que quase foi atropelado. Que isso contribua para o diálogo sobre a militarização das policias, que a própria ONU recomenda que acabe".

A jornalista Camila Bahia, de 23, presente na ação policial no bloco Tchanzinho Zona Norte, também comenta as expectativas sobre a reunião.

"O que a gente espera, e já há muito tempo, é não ter mais medo da polícia. É não andar amedrontado por quem parece ter licença e meios para agredir, humilhar e matar, e ainda assim não ser julgado e punido adequadamente. O que a gente quer é a desmilitarização das instituições. É não ser mais visto como inimigo só por estar usando a cidade, ou por questionar, ou só por ser pobre, negro ou morar na periferia."

Aberta ao público, a reunião promete contar com a participação do secretário de Estado de Defesa Social, Bernardo Vasconcellos; do comandante-geral da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), coronel PM Marco Antônio Bianchini; do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais (OAB/MG), Antônio Fabrício Gonçalves; da defensora pública do Estado de Minas Gerais, Júnia Roman Carvalho; do secretário de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania, Nilmário Miranda, e de representantes dos foliões e de movimentos culturais, como Ludmilla Zago (Família de Rua) e Túlio Castanheira (Bloco da Bicicletinha).