O uso das bicicletas compartilhadas na capital mineira ainda não caiu no gosto da população. Balanço do Observatório da Mobilidade revela que, nos últimos três anos, as viagens contabilizadas pelo programa Bike BH vêm caindo significativamente.

Em 2015, com pouco mais de 12 meses de funcionamento do sistema, cerca de 121 mil viagens foram realizadas, número que caiu para 92 mil já no ano seguinte e chegou a 78 mil no ano passado. 

Nas 40 estações espalhadas pela metrópole, diversos problemas são verificados. Há dezenas de ‘magrelas’ depredadas, com retrovisores arrancados, buzinas com defeito, correntes soltas ou arrebentadas e pneus vazios.

Dificuldades

Quem decide utilizar o serviço muitas vezes é surpreendido com falhas no funcionamento. Na avenida Augusto de Lima, em frente ao Fórum Lafayette, no Barro Preto, região Centro-Sul, a vendedora Talita Calixto, de 28 anos, precisou ter paciência para encontrar uma bike sem defeito.

“Da última vez, a corrente soltou comigo cinco vezes. Cheguei a cair em uma delas”, relata. “Costumo ir todo dia até a Praça Floriano Peixoto (Santa Efigênia), mas é comum dar algum problema no meio do caminho”, afirma a jovem. 

Ela acredita que a oferta das bikes compartilhadas trouxe ganhos para a mobilidade urbana no município, mas avalia que o programa precisa de aperfeiçoamentos. “É questão de segurança. Tem que ter manutenção mais rigorosa”. 

Prefeitura de Belo Horizonte planeja revisar cerca de 60 quilômetros de ciclovias na metrópole

Na estrutura em frente ao Colégio Santo Antônio, na rua Pernambuco, também na Centro-Sul, o estudante Lucas de Abreu, de 21 anos, enfrenta as mesmas dificuldades. 

Ele costuma pedalar até a Praça da Estação, no hipercentro, todas as tardes, mas garante que a tarefa não é simples. “Geralmente o pneu está furado ou esvazia no trajeto. A abrangência das estações também é pequena. Em cidades como Rio de Janeiro você encontra muito mais bikes disponíveis”.

Necessidades

Quem já fez da magrela o meio de transporte preferido avalia que o programa não é adequado às necessidades da capital mineira. Membro do Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte (BH em Ciclo), o analista internacional Guilherme Tampieri afirma que o sistema de compartilhamento na cidade está aquém do esperado.

Ele explica que nunca ficou claro se a iniciativa seria voltada para o turismo ou para o uso diário dos moradores. Além disso, diz que detalhes técnicos não foram planejados corretamente. “Os manuais internacionais dizem que esses pontos devem estar a 500 metros um do outro, mas aqui são dois quilômetros de distância”. 

Outro problema apontado pelo usuário é a forma de pagamento adotada pelo sistema. “O desbloqueio da bike poderia ser feito, por exemplo, pelo cartão BHBus, mas não há integração tarifária, muito menos física”, frisa. 

Por nota, a BHTrans informou que “está negociando o projeto de bicicletas compartilhadas na cidade com a empresa que o administra para ampliá-lo e para que os problemas apontados não ocorram”.

Bicicleta compartilhada

Talita Calixto conta ter custado a encontrar uma bicicleta sem defeito

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A falta de investimentos robustos em infraestrutura também contribui para o desestímulo ao uso das bicicletas compartilhadas em BH, afirma o professor Leandro Cardoso, do Departamento de Engenharia de Transportes e Geotecnia da UFMG. 

Segundo ele, quanto mais recursos para auxiliar o ciclista estiverem disponíveis, maior a chance de a adesão ao meio de transporte. Essas facilidades não incluem apenas a expansão das ciclovias existentes na capital, frisa o especialista. 

“A possibilidade de levar as bikes no ônibus em qualquer horário, a existência de bicicletários e disponibilidade de vestiários para as pessoas tomarem banho também fazem toda diferença”, diz.

O aplicativo do Bike BH terá melhorias das funcionalidades a partir de novembro, informou a Serttel

Planos

Por nota, a BHTrans informou que o município já tem financiamento aprovado para a revisão de aproximadamente 60 quilômetros de projetos cicloviários. Agora, o órgão garante pleitear mais verba para implantar projetos viários, dentre os quais estão previstos mais 25,6 quilômetros de espaços exclusivos para as “magrelas”.

A autarquia destacou, ainda, que a ampliação da malha cicloviária do município “vem ocorrendo de acordo com o cronograma de obras da Prefeitura de Belo Horizonte, como no caso da Via 710 – mediante disponibilidade de recursos públicos – e em oportunidades de contrapartidas de empreendimentos privados, como na ciclovia da avenida Tancredo Neves”.

Manutenção

Responsável pela gestão do programa Bike BH, a empresa Serttel informou, por meio da assessoria de imprensa, que todas as 400 bicicletas disponíveis nas 40 estações instaladas na cidade recebem manutenção diária, mesmo sem apresentar qualquer defeito. Segundo a gestora, os problemas mais comuns são os “furtos de retrovisores e campainhas”. 

O aplicativo utilizado para desbloqueio das bicicletas também vai passar por mudanças. De acordo com a Serttel, o sistema terá novas funcionalidades a partir de novembro. Dentre as melhorias, o público poderá informar dificuldades encontradas diretamente na plataforma. 

“O novo app Bike BH também vai permitir mostrar a rota de uma estação para a outra, a localização do usuário até a estação mais próxima, bem como o histórico de viagens e financeiro”, diz o texto da empresa.