Se a realidade da saúde pública em Belo Horizonte é dura para quem precisa utilizar o serviço, o cenário não é diferente para quem trabalha prestando atendimento à população. Além do aumento da demanda nos últimos anos, os funcionários são obrigados a enfrentar diariamente a estrutura física precária, falta de insumos, medicamentos e até de profissionais.

Em situações mais críticas, servidores têm realizado ‘vaquinhas’ para suprir a escassez de fraldas geriátricas. Há casos até de funcionários ameaçados de morte por pacientes.

Pelo menos 600 famílias são atendidas pelo Centro de Saúde Cafezal, segundo funcionários da unidade 

Na Centro de Saúde Cafezal, na região Centro-Sul da cidade, o relato de enfermeiros e médicos é uma mistura de insatisfação e medo. No local, o forro de uma das salas está, literalmente, caindo aos pedaços. Os funcionários afirmam que o problema piora nos dias de chuva, quando a água escorre para dentro da unidade molhando móveis e documentos. Usuários ficam em risco, uma vez que a escada molhada torna-se escorregadia. 

Centro de Saúde do Cafezal
IMPROVISO – Sala de emergência no Cafezal está em um corredor cercada apenas por um armário

Outro problema é a ausência de uma sala de emergência, que atualmente é improvisada em um corredor onde está uma maca cercada apenas por um armário de metal. No posto não tem acessibilidade, obrigando cadeirantes a serem encaminhados para atendimento em outros bairros. 

Não bastassem os problemas de estrutura, os servidores que trabalham no Cafezal também ficam cara a cara com a violência cotidiana. “No ano passado, uma ginecologista foi ameaçada de morte por um morador do bairro. Ele exigia dela encaminhamento para que a esposa se aposentasse. Como ele não foi atendido, postou fotos em uma rede social mostrando armas e ameaçando a doutora”, relata uma profissional que não quis se identificar. 

Em janeiro, o prefeito Alexandre Kalil visitou o local. Na ocasião, o secretário de Saúde, Jackson Pinto, garantiu reforma do imóvel e a expansão do posto para um terreno vizinho “em um prazo muito curto”.

Até o momento, porém, a única ação feita pela prefeitura foi designar guardas municipais para a proteção diária da unidade. 

Medicamentos

A falta de medicamentos de uso contínuo também é um dilema enfrentado pelos enfermeiros que atuam no Cafezal. Segundo eles, remédios usados para o tratamento de crises de asma, como a hidrocortisona e o salbutamol spray, não têm sido entregues na unidade. “Com a chegada das frentes frias, a procura por eles aumenta e o convívio com a comunidade fica ainda mais delicado”, conta uma funcionária, que também pediu anonimato.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que o processo de compras da hidrocortisona realizado em 2016 foi fracassado. Um novo processo está em andamento. Sobre o salbutamol spray, a pasta informou que “a entrega está atrasada e já estão sendo tomadas as medidas administrativas cabíveis ao fornecedor do medicamento”.

UPA Norte
EM FALTA - Na UPA Norte, no bairro Primeiro de Maio, usuários enfrentam escassez de roupa de cama nos leitos e medicamentos

Fraldas geriátricas compradas com ‘vaquinhas’ de funcionários

A carência de infraestrutura também é marcante na UPA Norte, localizada no bairro Primeiro de Maio. No local, que recebe cerca de 250 pacientes todos os dias, funcionários alegam que as ‘vaquinhas’ têm sido a saída para a aquisição de fraldas geriátricas, destinadas principalmente ao atendimento da população idosa. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o processo de compra desses itens já foi realizado e o abastecimento dos estoques das unidades já está sendo regularizado.

“Há oito anos foi prometida a construção de 81 novas unidades de saúde em BH. Até então só foram feitas duas. Uma na Pampulha e outra no São Francisco” (Cleide Donária de Oliveira, Sindibel)

Outro reclamação comum é sobre a inexistência de roupas de cama para a utilização nos leitos. “Lençol é uma coisa que nem adianta pedir porque não tem mesmo. E isso já vem acontecendo há algum tempo”, afirma uma funcionária que não quis ser identificada.

A falta de medicamentos também é um problema enfrentado pela unidade. “Estamos sem a heparina subcutânea, usada para combater a trombose. Além disso, não temos hidrocortisona”, revela outro profissional. 

Representante do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte (Sindibel), Cleide Donária de Oliveira frisa que o problema no serviço de saúde oferecido pelo município é evidente e extremo. “Temos unidades que possuem até elevador e outras que não há sequer uma rampa para cadeirantes”. 

Ela afirma que outro problema urgente em Belo Horizonte é a precariedade do serviço odontológico. “Hoje, não há manutenção nas cadeiras dos consultórios odontológicos. Faltam peças de reposição e insumos. Em alguns locais, o único procedimento que pode ser feito é a extração de dentes. Nada mais”, diz Cleide. 

A prefeitura informou que “a manutenção dos equipamentos de odontologia é realizada por corpo técnico e, no mês passado, foi feita ampliação da equipe com a contratação de novo profissional de forma a garantir maior agilidade ao atendimento da odontologia”.

Série especial

O Hoje em Dia mostrou, desde a última segunda-feira, os principais gargalos da saúde pública em Belo Horizonte. A reportagem visitou diversas Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) e centros de saúde do município, apurando a situação difícil vivida por usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) no município. 

De 2015 para 2016, mais de 172 mil mineiros foram obrigados a abrir mão do assistência médica particular, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Só na capital, a debandada dos planos de saúde no mesmo período foi de quase 55 mil pessoas. 

Outro problema mostrado foi a fila geral de espera para cirurgias eletivas em Belo Horizonte que, atualmente, é de 50.935 pessoas, segundo dados do Conselho Municipal de Saúde. No entanto, a cidade dispõe de apenas 6.106 leitos pelo SUS, segundo a prefeitura.