Barão de Cocais - O tempo parece cruel e o passar das horas alimenta uma angústia de ver, em poucos minutos, uma mancha de lama cobrir parte da cidade. O risco de rompimento da Barragem Sul Superior, em estado de alerta desde março deste ano, foi potencializado há poucas semanas com a deformação constante do talude norte na Mina de Gongo Soco, administrada pela mineradora Vale. Em estado de alerta, há quem já esteja tomando medidas para deixar a cidade de 32 mil habitantes.

Com um imóvel de 12 cômodos no centro de Barão de Cocais disponível para vender desde o ano passado, o senhor Adair Gomes, de 65 anos, amarga a falta de compradores. Se em 2018 apareciam interessados, diz o aposentado, neste ano, depois que os alertas foram emitidos, o número de ligações e visitas para conhecer o espaço é praticamente nulo. 

Antes irredutível no preço, agora a família admite negociar com quem estiver disposto a conversar. "Ficou ainda mais difícil achar quem esteja interessado na casa, depois desse risco todo, então. Mas, de toda forma, eu é que não quero ficar nessa instabilidade", afirma Adair, que admite estar arrumando tudo para morar em outra cidade, que já foi atingida pela lama em 2016: Mariana. 

De malas prontas

O medo de um possível rompimento da Barragem Sul Superior foi o suficiente para que a dona de casa Natália Miranda, de 62, arrumasse suas malas para tentar sair do local onde mora há pelo menos 40 anos. As roupas guardadas dentro de sacolas e malas e fotografias, antes expostas na sala da casa, empilhadas em caixas de papelão, foram ajeitadas depois que o risco da estrutura passou para o nível máximo, em março deste ano. "Quase passei mal quando me falaram que estava muito próxima dessa tal mancha de inundação", lembra Natália, que tem como ponto de encontro a Escola Municipal Mares Guia.

Simulados e notícias constantes do provável desastre, no entanto, não têm deixado a mulher dormir. Os dias em que acorda de madrugada e teme ser levada por uma onda de lama são muitos. "Quero sair daqui, estou com tudo pronto para isso. Mas ainda não sei para onde. Quero ir para um lugar onde os meus três netos consigam, ao menos, estudar. Será que é pedir demais?", lamenta. 

Hoje, o lar que divide com as crianças e a filha não é o mesmo de antes. Os anseios agora são outros, diz Natália. "Meus meninos seguram a minha mão quando escutam qualquer barulho, que seja o do liquidificador. Falam: vovó, não quero morrer debaixo da lama", diz. "Meu coração dói, moço".