CARATINGA – A segurança dos muriquis que povoam a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga, Leste do Estado, está ameaçada. Cães que vivem em fazendas e de moradores do entorno estão caçando no santuário, matando os animais que descem das árvores para beber água.

Armadilhas fotográficas registraram 35 cachorros diferentes na mata, um número considerado alto para a área de 957 hectares. Ações de combate aos ataques estão sendo planejadas.

O cercamento da reserva para impedir a entrada dos cães foi descartado porque, segundo o gerente da RPPN, o biólogo Marcello Nery, seria uma barreira também para o trânsito dos animais silvestres.

Além dos mais de 300 muriquis-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) – 30% da população existente –, nesse remanescente de Mata Atlântica vivem também outras espécies, como o macaco-prego, o barbado e o sagui; felinos como a onça parda e pelo menos 300 espécies de aves. Entre elas está o gavião pato que, assim como o muriqui, está ameaçado de extinção.

“O impacto dos cães em um ambiente natural acontece sobre toda a fauna”, adverte o biólogo. Embora não tenha números, ele revela que, ao longo dos últimos anos, foram registrados diversos ataques a primatas, ouriços, quatis, iraras e pacas. “Por tratar-se de um local com muitas espécies raras, ameaçadas e endêmicas da Mata Atlântica, a situação pode ser considerada gravíssima, em função do número de cachorros em relação ao tamanho da área”, analisa.

Conscientização

O primeiro passo será uma campanha de conscientização dos proprietários dos cães, já em fase de planejamento.

O segundo, a captura e entrega dos animais no canil municipal. “Entendo que o problema causado pelos cães seja de difícil solução, pois envolve uma questão cultural e de direito de propriedade. Acredito que, em primeiro lugar, seja necessário fazer com que os donos – os moradores do entorno – entendam a dimensão do problema e se engajem na solução”.

Se a captura for mesmo necessária, a ação será discutida e desenvolvida em conjunto com as autoridades competentes. Além das prefeituras das cidades do entorno, como Caratinga e Ipanema, por intermédio de secretarias – de Meio Ambiente, Saúde e Vigilância Sanitária –, serão convocados o Ministério Público, instituições de ensino e pesquisa e ONGs com interesse na solução do problema.

As prefeituras de Caratinga, sede da reserva, e a de Ipanema, mais próxima da RPPN e integrante do Circuito Turístico Rota do Muriqui, informaram, por meio das assessorias, que abraçarão a campanha tão logo ela seja lançada.


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