Ser aprovado na UFMG é um desafio para milhares de estudantes todos os anos, mas concluir os estudos pode ser uma missão ainda mais difícil. Seja por imaturidade na escolha do curso, dificuldade em equilibrar a rotina de trabalho com as aulas noturnas ou a má remuneração oferecida pelo mercado a algumas profissões, a evasão é um fenômeno presente na maioria dos cursos da instituição. De 2010 a 2015, 9.879 alunos desistiram de lutar pelo canudo na principal universidade de Minas.

De acordo com dados divulgados na Coletânea de Relatórios Técnicos do Setor de Estatística da UFMG, apenas nos dez cursos que lideram o ranking de evasão no período, quase 1.500 alunos desistiram de concluir os estudos. 

No curso noturno de licenciatura em física, por exemplo, o índice de desistências nos últimos cinco anos foi de 62,1%. Logo em seguida, o curso de licenciatura em matemática obteve 58,8%. 

22,5% é o índice médio de evasão em todos os cursos da UFMG

O estudante Paulo Matos, de 23 anos, que atualmente cursa engenharia de sistemas na UFMG, começou a faculdade na graduação de matemática computacional, terceiro com maior taxa de evasão entre os 93 que a universidade oferece. A troca, que aconteceu após quatro anos de estudos, se deu porque ele não se via inserido no mercado de trabalho. 

“Eu até gostava do curso, mas queria algo mais prático. A matemática era muito abstrata e eu não via uma aplicação prática”, explica. Por isso, logo que perdeu interesse pela primeira opção, começou a fazer matérias eletivas em outros cursos até que se interessou pelas da engenharia. “Pedi a reopção e comecei de novo esse semestre, logo depois de largar a matemática. Estou gostando muito, principalmente porque estou aprendendo coisas que terei como aplicar”, avalia.

No extremo oposto da tabela, o curso com menor índice de evasão (2,86%) é a medicina. De 2010 a 2015, apenas 56 alunos desistiram de concluir os estudos por algum motivo.

Prejuízos

Para especialistas em educação, a evasão é um problema que deve ser encarado tanto pelo mercado de trabalho quanto pelas universidades. O pedagogo e professor da PUC Minas Carlos Roberto Jamil Cury explica que as desistências são um duplo prejuízo para a sociedade. 

“As universidades precisam encontrar mecanismos para reter o estudante na licenciatura” (Carlos Roberto Cury, pedagogo) 

Para ele, há uma perda financeira, já que uma vaga abandonada é um investimento público que não terá retorno. Além disso, no caso das licenciaturas, há cada vez menos docentes chegando às escolas de ensino fundamental e médio.

“O piso salarial de um professor, por exemplo, deveria ser compatível com o de um profissional com formação equivalente e não os atuais R$ 1,9 mil reais. A perspectiva de remuneração ruim para as licenciaturas influencia diretamente a decisão dos alunos em continuar ou não o curso”, avalia Cury.

Durante dois dias, a reportagem solicitou à UFMG uma fonte da instituição para comentar os dados do relatório. A assessoria de imprensa, porém, informou que ninguém foi localizado. Questionamentos sobre medidas adotadas pela universidade para evitar a evasão dos alunos foram feitos, mas o órgão não se pronunciou.

Escolha precoce do curso motiva evasão na faculdade

A necessidade de fazer a escolha do curso muito cedo também é apontada como uma razão para a evasão das universidades. O pedagogo Carlos Roberto Cury afirma que os jovens são obrigados a definir o caminho que querem seguir por volta dos 17 anos, idade em que muitos ainda não possuem maturidade suficiente. 

“Eles são praticamente obrigados a fazer uma escolha precoce. São inúmeros os casos de alunos que saem da medicina para engenharia ou das letras ou direito. É um fenômeno extremamente comum, presenciado por nós, professores, dentro da universidade”, explica.

É o caso do estudante Ítalo Esteves Coutinho, de 23 anos, que após quatro anos cursando bacharelado em química na UFMG trancou a matrícula assim que voltou de um intercâmbio, pelo Ciências Sem Fronteiras, na Universidade de Oregon, nos Estados Unidos. 

“Um dos principais motivos foi uma batalha com o colegiado do curso para homologar e validar as matérias e o estágio feitos fora do país. Essa pequena luta me desgastou”, conta o jovem.

Ele chegou a ficar um ano afastado dos estudos e, por isso, acabou sendo jubilado da graduação de química. Agora, Ítalo está matriculado no curso de letras também na UFMG.

Evasão na UFMG