O ronco dos motores dos ônibus, as buzinas das motocicletas, o grito dos ambulantes, a música alta das lojas de eletrodomésticos, o ruído das inúmeras vozes das pessoas que passam apressadas. O som das ruas do Centro de Belo Horizonte, às vésperas do Natal, não é de Jingle Bell.

Nem o clima é de confraternização, mas sim de tensão. “Ando segurando a bolsa para frente, não uso o celular na rua. No carro, estou sempre com os vidros fechados. Tenho medo”, diz a bacharel em direito Elaine Márcia Pereira, que ainda fazia as últimas compras na terça-feira.

Em uma época onde as ruas ficam abarrotadas de gente comprando presentes, a sensação de insegurança aumentou neste fim de ano, no hipercentro, por causa do efetivo menor da Polícia Militar empenhado para a época, comparado a 2014. “O número de militares em diversos cursos de formação, que são os deslocados para Operação Natalina, está menor neste ano”, justifica o tenente Abílio de Moura, da 6ª Cia, do 1º Batalhão.
 
Segundo ele, o reforço desde o início de dezembro, que segue até 8 de janeiro, é de cerca de 65 militares. Do próprio batalhão, são em média 25 por dia. Todos operam em revezamento por turno.

A reportagem do Hoje em Dia andou pelas ruas do hipercentro e constatou poucos homens fardados. “As pessoas estão mais inseguras para vir às compras. Roubos e assaltos crescem nesta época. Todos os dias, vemos a própria população correndo atrás de ladrão, não tem policiamento”, reforça a gerente de loja Vânia Maria Rodrigues.

“Se a gente chama a polícia, ela até vem, mas demora. Quando precisamos, eles não estão aqui”, endossa Diana Almeida. A também gerente de loja conta ter sido agredida na semana passada, dentro do estabelecimento, por uma mulher que tentou furtar produtos e foi flagrada por ela.

Legislação

De acordo com o tenente Abílio, a redução do efetivo não é o único problema. “A polícia prende muito. O problema está na lei penal, que concede muitos benefícios aos criminosos”.

O militar diz que, somente no período da Operação Natalina, foram realizadas 60 prisões no hipercentro por furtos, roubos e mandados de prisão em aberto. Porém, a maioria dos detidos já está de volta às ruas.

“São principalmente jovens entre 18 e 30 anos, reincidentes. Se a pessoa não tiver com processo transitado em julgado, não fica presa, a não ser por crime violento, como latrocínio. Já tivemos casos de prender o sujeito três vezes na mesma semana”.

Tecnologia se mostra boa aliada da Polícia Militar ao aproximar cidadãos
 
Na luta contra a criminalidade, o WhatsApp tem se tornado um aliado. Há cerca de três meses, lojistas estão conectados com a PM através de comunidades no aplicativo. Segundo o empresário Jonísio Lustosa Nogueira, diretor do Conselho Regional do Hipercentro da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e presidente do Conselho Comunitário de Segurança Pública (Consep) da região central, a tecnologia tem ajudado bastante.

“Um lojista que vê alguém em atitude suspeita posta as características da pessoa. A polícia vai para o local imediatamente”, relata.

De acordo com o tenente Abílio Moura, da 6ª Companhia do 1º Batalhão, a corporação deve ser acionada via o número 190, mas o aplicativo tem sido uma importante ferramenta para que a PM divulgue dicas de segurança, fotos de indivíduos que praticam crimes na região e os resultados do trabalho do policiamento.

Jonísio afirma que, apesar de menos policiais nas ruas neste fim de ano, a situação está controlada. “Ultimamente, temos tido muita queixa de arrombamentos, que acontecem à noite, de forma muito amadora. Acreditamos que sejam moradores de rua”, diz.

Por outro lado, o tenente Abílio garante que os furtos à estabelecimentos comerciais reduziram em 2015. Em contrapartida, ele frisou, cresceram os furtos a transeuntes – problema que afeta diretamente o comércio. “A segurança é um dos fatores mais importantes para o sucesso das vendas de Natal. Quando as pessoas sentem-se inseguras, elas evitam sair para comprar”, diz o vice-presidente da CDL, Marcos Innecco.

Mesmo com reforço na fiscalização, comércio ambulante ganha impulso no hipercentro

medo no centro

 Enquanto a equipe do Hoje em Dia andava pelas ruas do Centro para conversar com a população sobre segurança, flagrou a ação da Guarda Municipal contra um vendedor ambulante. O homem, que comercializava papel de presente, foi imobilizado pelo pescoço.

Segundo um dos guardas, tratava-se de uma ação de fiscalização contra o comércio irregular. O ambulante teve os produtos apreendidos e foi liberado em seguida.

“Eu não ofereci resistência, não precisava me pegar assim, estou trabalhando”, disse o ambulante.

“A gente tenta trabalhar e é esculachado. Enforcaram o cara”, gritava, inconformada, uma vendedora de rua.

OUTRO LADO

Segundo a assessoria de imprensa da Guarda Municipal, qualquer ato considerado abusivo dos agentes é apurado pela corregedoria da corporação.

A Prefeitura de Belo Horizonte informou, por meio de nota enviada pela Regional Centro-Sul, ter reforçado a fiscalização nas vias públicas neste período natalino. As equipes envolvidas no trabalho são compostas por fiscais, que contam com o apoio da Guarda Municipal e da PM.

O texto esclarece, ainda, que a venda de produtos por camelôs e toreros nas ruas constitui infração administrativa, com previsão de apreensão imediata dos produtos e aplicação de multa.