Pérola Mendes Martins tem apenas uma semana de vida e ainda não sabe, mas representa um marco na história da medicina em Minas Gerais. Ela foi operada, ainda no útero da mãe, a recepcionista Walkiria Flaviana Oliveira Mendes, de 32 anos, para corrigir uma mielomeningocele, má-formação responsável por uma série de complicações. A intervenção foi a primeira do tipo a ser realizada no Estado e aconteceu em maio, no Hospital Vila Da Serra, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

O defeito congênito interfere no fechamento da coluna do feto por volta da sexta semana de gestação, deixando exposta a medula, próximo à região lombar. Em 75% dos casos, as crianças perdem a locomoção, ficando dependentes dos pais, afirma cirurgião fetal Fábio Batistuta de Mesquita, responsável pelo procedimento pioneiro em Minas Gerais.

“Outro problema grave é o desenvolvimento da hidrocefalia, devido a uma interferência no cérebro. Nesses bebês, é preciso implantar válvula para drenar o fluxo e necessário reoperar diversas vezes ao longo da vida. Isso piora o desenvolvimento neuropsicomotor”, explica.

A técnica utilizada por Mesquita e toda a equipe multidisciplinar do Hospital Vila Da Serra na cirurgia de Pérola foi desenvolvida pelo médico Fábio Peralta, do Hospital do Coração de São Paulo (HCor) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Consiste na redução de riscos para a mãe, já que o corte feito no útero, entre a 19ª e a 26ª semanas de gestação, é menor do que o previsto em procedimentos datados do início dos anos 2000.
 

Hospital Vila da Serra cirurgia
Equipe multidisciplinar participou tanto da cirurgia, em maio, quanto do parto, em 31 de julho


Ganhos

A correção da mielomeningocele, que é uma má-formação sem cura, representa a reparação de um dano primário, esclarece o cirurgião Fábio Mesquita. “Melhora o prognóstico ao longo da vida da criança, diminuindo riscos. Ela poderá caminhar normalmente e terá a redução, em 80%, da necessidade de válvula cerebral”, relata o especialista, que lembra a relevância e os impactos sociais de resultados como esses.

Saber desde a descoberta da condição da filha que era possível operar foi um alento para Walkiria e o marido, Petter Martins, de 37 anos. “Demos sorte que a nossa médica já sabia falar do assunto, da medicina fetal, ficamos mais tranquilos. Em momento algum eu tive medo, as coisas foram fluindo muito bem”, relembra.

A recepcionista, que mora em João Monlevade, na região Central de Minas, agradece a Deus a todo momento, pois acredita que um milagre aconteceu. “Eles (médicos) falaram que a cirurgia foi um sucesso. Após o nascimento da minha filha já disseram que houve a reversão da hidrocefalia. Ela veio perfeita, não precisou de UTI. Hoje (ontem) mesmo saímos do ortopedista, que já esperava um quadro clínico que não aconteceu”, conta.

Walkiria acredita que conseguir a cirurgia foi parte do milagre

Acesso

Por ser uma cirurgia relativamente nova, a correção de mielomeningocele ainda não foi codificada como procedimento médico no Brasil, apesar de já ter sido executada em mais de 150 pacientes pelo grupo do cirurgião Fábio Peralta, do qual o médico Fábio Batistuta de Mesquita é membro.

Atualmente, a operação é realizada no hospital da Universidade de São Paulo (USP). Em planos de saúde até o momento não houve credenciamento, e uma maneira de acesso pode ser a via judicial.

Para Walkiria, conseguir a cirurgia foi parte do milagre. “Primeiramente, contamos com a solidariedade da junta médica do hospital, e, também, com nossos amigos, que fizeram uma campanha para arrecadar dinheiro na nossa cidade”, conta.