Ser negro é fator de risco. Mesmo quando comparamos indivíduos com escolaridade e características socioeconômicas semelhantes, os afrodescendentes estão mais expostos à violência do que a população branca. A cada três mortes violentas em Minas, duas são de pessoas pardas ou de pele preta. O Estado segue a média nacional.
Enquanto a taxa de homicídios de negros é de 23,8 mortes por 100 mil mineiros, dentre os “não negros” é de 10,3. Os dados foram apresentados ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Hoje é Dia Nacional da Consciência Negra.

O levantamento também considera os impactos das mortes por homicídio, acidentes de trânsito e suicídio, dentre outras, na expectativa de vida de negros e não negros. Com base no cruzamento de informações do Ministério da Saúde e do Censo de 2010, foi possível perceber que, em Minas, os assassinatos reduzem em 13 meses a expectativa de vida dos negros. Entre os brancos, a perda é de menos de cinco meses.

O levantamento ainda traz à tona uma ferida aberta desde a abolição da escravatura: o racismo. Segundo o pesquisador Rodrigo Leandro de Moura, um dos coordenadores do estudo, ao se comparar indivíduos que sofreram morte violenta no país, entre 1996 e 2010, percebeu-se que características socioeconômicas – escolaridade, gênero, idade e estado civil – foram responsáveis por apenas 20% dos óbitos.

Os 80% restantes serão foco de uma nova análise, mas já se sabe que a cor da pele da vítima, quando preta ou parda, faz aumentar a probabilidade de a mesma ter sofrido homicídio em cerca de oito pontos percentuais. “Ou seja, o racismo contribui para a perda de vidas”.
 
Estigma
 
Lecionando há 15 anos temas relacionados a questões raciais, o coordenador do Centro de Estudos Africanos da UFMG, Luiz Alberto Gonçalves, reforça que, ao se analisar a violência, a raça da vítima jamais deva ser ignorada.

“Vivemos um preconceito, um racismo institucional. Em todos os setores isso está estigmatizado. A abordagem policial em um negro é diferente em relação a um branco”.

Para o professor, mudanças vêm ocorrendo, como as cotas raciais, mas ainda há um abismo social entre as raças. “Isso envolve mudança de mentalidade, o que só vai acontecer a longo prazo. Precisamos rever políticas públicas e resultados obtidos até agora. Em uma escola com conceito bom, será que todos os alunos são brancos ou há dificuldade em um grupo menor, formado por negros?”, indaga.
 
No país, o pior resultado ficou com Alagoas. No estado nordestino, os homicídios reduziram em quatro anos a expectativa de vida de homens negros. Entre os “não negros”, foram apenas três meses e meio. Lá, a taxa de homicídios de indivíduos de pele preta é de 80,5 mortes por 100 mil habitantes, enquanto entre os demais é de 4,6.

Espírito Santo e Paraíba também são destaques negativos no ranking elaborado pelo Ipea, com, respectivamente, 65 e 60 homicídios de negros a cada 100 mil habitantes. No estado do Sudeste, os assassinatos diminuem a expectativa de vida dos homens negros em 2,97 anos.

Diferença
 
Segundo o pesquisador Rodrigo Leandro de Moura, as condições socioeconômicas e demográficas entre negros e não negros explicam a diferença de vitimização por homicídios no país.

“São estados historicamente mais pobres. Questões como baixa escolaridade, desemprego e renda média contribuem”. Ele reforça que o percentual de jovens negros e brancos na população também interfere.

 

(*) Com Renata Galdino