Se tem uma coisa da qual Aelde Aparecida Salles Ramalho não abre mão é andar de bicicleta. E o motivo vai além de manter a forma física. Foi graças à atividade que a empresária de 54 anos fez as pazes com a enxaqueca. Ao longo da semana, soma quase cem quilômetros percorridos. A receita vem dando certo. Já são quatro meses sem as sofridas crises de dor – problema que a acompanhava há pelo menos uma década. 

Uma das dez doenças mais incapacitantes do mundo, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), a enxaqueca ou migrânea afeta mais mulheres que homens, mas com os mesmos efeitos nos dois grupos quando mal ou não tratada. Evitar automedicação, buscar orientação médica e ter uma rotina disciplinada e saudável ajudam a conviver com o problema. 

Aelde que o diga. “É minha terapia. Sei que não tem cura, já tentei diversos tratamentos e o que mais me beneficiou foi a bicicleta. Para mim, foi a receita que deu certo”, comemora a empresária, que já amargou dois dias ininterruptos de dor. 

Coordenador do Serviço de Neurologia do Hospital Madre Teresa, em Belo Horizonte, e preceptor da residência de neurologia do Hospital das Clínicas da UFMG, Rodrigo Santiago Gomez explica que, embora a enxaqueca tenha origem genética, não é possível definir gatilhos nem soluções que sejam comuns a todos os casos. 

“Não há uma resposta simples sobre como driblá-la. É uma conjunção de fatores. A primeira coisa é reconhecê-la, procurar um profissional e discutir um tratamento. Fazer uma atividade aeróbica pelo menos quatro vezes por semana, evitar jejuns prolongados e ter alimentação regular também são importantes”, ensina o neurologista, chefe do Ambulatório de Cefaleia da UFMG. 

Alerta

Recoonhecer os sinais que o corpo dá e, assim, ser capaz de protegê-lo das crises também é fundamental para ficar em harmonia com a doença. A enxaqueca é uma das principais causas de ausência no trabalho e está entre as queixas mais frequentes nos pronto-socorros e consultórios neurológicos. 

A pedagoga Cássia Tavares Couto Meirelles, de 43 anos, por exemplo, está livre das fortes dores há cerca de quatro anos. Cuidadosa com a rotina e vigilante, principalmente, com a alimentação, consegue reconhecer quando as crises estão por vir. “O principal, para mim, foi a prevenção. Os médicos orientam a ficar atento ao corpo. No meu caso, às vezes basta comer ou deitar um pouquinho”, resume, reconhecendo fazer o “dever de casa”.

Segundo o neurologista Rodrigo Gomez, de fato, nem sempre é preciso usar remédios para prevenir a enxaqueca. Medicação profilática é indicada só para pacientes com dores duas a três vezes por semana e incapacitados de exercer as atividades do dia a dia. 

A doença é mais prevalente em mulheres jovens com histórico familiar da doença. Nelas, as crises também costumam estar relacionadas ao período pré-menstrual 

Enxaqueca Aelde Salles

Aelde encontrou na bicicleta a fórmula para ficar livre das crises de dor de cabeça: “É minha terapia. Para mim, foi a receita que deu certo”

Sintomas clássicos ajudam a detectar chegada da crise e auxiliam no controle da dor

Embora os sinais de dor e as condutas diante deles variem para cada pessoa, existem “avisos” clássicos que podem ser observados por quem desconfia ter ou foi diagnosticado com enxaqueca. Prevalente em 25% dos pacientes, a aura é um deles. Fenômeno transitório, caracteriza-se por visão embaçada, dormência em algumas partes do corpo, vertigem e até distúrbios na fala. 

Diretor da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe), o neurologista Pedro Sampaio explica que o episódio é rápido e passageiro. “Dura poucos minutos e, geralmente, ocorre antes ou durante a dor”, resume, reforçando que o sintoma não deve ser encarado com preocupação. 

O especialista acrescenta que fazer um diário da enxaqueca – detalhando dias, horários em que se manifesta, incômodos percebidos, intensidade da dor e outras informações que ajudem a entender o quadro – também facilita no controle da doença. “Identificar os desencadeantes da crise é importante. O diário também ajuda a compreender os efeitos do tratamento”, acrescenta.

Abuso de remédio

Quem tem o hábito de se automedicar durante os episódios de dor ou abusa de analgésicos prescritos pelo médico também deve ligar o sinal vermelho. Neurologista e neurofisiologista em BH, Rosamaria Peixoto Guimarães explica que esses medicamentos em excesso levam à abstinência.

“Não é que aumente a resistência do organismo à droga, mas faz com que a pessoa necessite de mais e mais remédio”, alerta a especialista. Segundo ela, o uso indiscriminado também causa problemas gástricos e renais. Alguns podem, inclusive, desencadear enfermidades cardíacas.

Além da atividade física, outros tratamentos alternativos como acupuntura, técnicas de relaxamento, de biofeedback e Terapia Cognitivo-Comportamental podem ser benéficos em alguns casos, diz a profissional.

Arte enxaqueca

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