Após uma semana de repetidos tiroteios no Aglomerado da Serra, a Polícia Militar finalmente intensificou a vigilância no local, em resposta à guerra pelo domínio do tráfico de drogas promovida por cinco gangues.

Até então, guarnições do 22º Batalhão e dos batalhões do Choque e Rotam estavam limitados a atividades pontuais, resumindo-se a buscas por drogas e armas nas imediações da linha de conflito, próximo às ruas Sacramento e Doutor Camilo. Segundo um militar de alta patente, a presença da polícia dentro do aglomerado ainda não havia acontecido.

No início da noite, o reforço de dez viaturas, cavalaria e grupamento aéreo permitiu a tomada das principais entradas da comunidade. “Ocupamos para sermos vistos pelos criminosos”, explicou o comandante do Batalhão de Choque, Gianfranco Caiafa.

De acordo com ele, isso permitirá incursões por becos e vielas. A ordem é permanecer até a prisão dos líderes das quadrilhas.

Tarefa difícil, principalmente diante da relação pouco amistosa entre PMs e a comunidade. O estopim da desavença aconteceu há cinco anos, quando dois moradores foram mortos por policiais do Rotam, desencadeando uma série de protestos.

De acordo com militares envolvidos na operação desta semana, os líderes das gangues – todos foram identificados – têm recebido ajuda de parte dos moradores para se esconderem. “Estamos tentando localizá-los, mas precisamos da ajuda da comunidade. E isso não está acontecendo”, disse um oficial que pediu para não ser identificado.

A ação da PM até então vinha causando estranhamento. “Eles iam até o “raso” sabe? Daí, faziam foto, davam entrevista, e só durante o dia”, afirmou uma moradora. Segundo ela, durante confrontos mais intensos, a polícia permanecia nas extremidades do aglomerado, e os bandidos dispersos.

Resposta

O coronel Robson Queiroz, comandante de Policiamento Especial, disse que as ações no bairro requerem cautela. “O trabalho tem que ser feito com todo cuidado para não colocar a segurança das pessoas em risco”. (Colaborou Renato Fonseca)

Toque de recolher às 20h é mantido mesmo com a presença ostensiva da polícia

O clima nas proximidades do Aglomerado da Serra é de medo e tensão. Nas ruas que dão acesso à parte alta da comunidade, como a Sacramento, nenhum morador e comerciante quis conversar com a equipe do Hoje em Dia.

Nessa segunda (1º), a reportagem tentou acompanhar a operação de militares do Batalhão de Rondas Táticas Metropolitanas (Rotam). Viaturas passavam pela comunidade, sempre com policiais exibindo rifles pela janela. Depois de algumas voltas, a equipe do Hoje em Dia foi orientada a se retirar do local devido ao risco iminente de novos tiroteios.

Nos arredores da praça do Cardoso, principal ponto de acesso ao aglomerado, era possível observar vários olheiros. Alguns ficam em pontos altos e outros percorrem a região em motos. São eles que monitoram o cumprimento do toque de recolher, que, desde a semana passada, está fixado às 20h – mesmo com a presença ostensiva da PM. O posto de saúde local também não abriu nessa segunda (1º), pois funcionários ficaram com medo de ir trabalhar.

“Há toque de recolher para os moradores, para o comércio e a ordem de não matar cidadão de bem. Essas são palavras dos próprios traficantes”, disse uma moradora que pediu para não ser identificada.

No bairro

O confronto entre gangues também tem afetado quem mora no bairro Serra, há poucos metros do aglomerado. Um morador que pediu anonimato pensa em se mudar com medo dos tiroteios. Uma cápsula vazia chegou a atingir a área privativa do apartamento dele. “A gente não tem sossego. Está todo mundo assustado e querendo sair”.

Para ele, os estampidos em sequência têm sido rotineiros e lembram o barulho de metralhadoras.

Arsenal

Outra moradora conta que os próprios militares dizem que as gangues usam armas iguais ou melhores que as da polícia. “De ponto 40 pra cima. Usam Nextel, rádio, uma coisa surreal”, afirmou.

Os confrontos também têm feito com que muitas pessoas que trabalhem na região mudem o trajeto. “Estou evitando passar perto da praça. Está terrível. Todo mundo está evitando”, disse um homem que trabalha no bairro.

Além disso

Na avaliação do coordenador do Núcleo de Estudo Sociopolítico da PUC-Minas, Robson Sávio, a estrutura de policiamento no Aglomerado da Serra deve ser modificada. “As forças de segurança precisam atuar em conjunto. O serviço de inteligência iria facilitar a identificação dos líderes criminosos, além de dificultar a entrada de armas e drogas dentro do aglomerado”.

O pesquisador reforça ainda que a atuação da PM no local deve ser constante, para criar um vínculo de confiabilidade entre moradores e policiais. “Se a polícia não estiver presente no dia a dia da comunidade, o combate ao crime terá pouco impacto”.

Robson Sávio enfatiza que o trabalho de investigação da Polícia Civil também pode contribuir mais para que os líderes das gangues sejam e presos. Desta forma, conseguiria impedir o comércio de armas e drogas.

46 mil pessoas vivem em vilas e favelas da região Centro-Sul