O tsunami de lama que matou mais de uma dezena de pessoas, devastou povoados e provocou o maior desastre ambiental da história do país completa neste sábado (5) um mês. Trinta dias nos quais a dignidade humana das famílias tem sido violada, e a longa espera por soluções está apenas no começo.

Se sobram danos ao meio ambiente destroçado pela avalanche de 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos, faltam respostas e punições. Não há dúvidas da responsabilidade da empresa mineradora, mas culpados e causas sequer foram apontados. Os estragos seguem incalculáveis e longe de ser reparados.

Em meio à dor da perda e à indignação com a tragédia que destruiu histórias e sonhos, as medidas assistenciais de emergência tomadas até o momento são lentas e mal conduzidas pela Samarco, destacam especialistas, que também reforçam a necessidade de revisão do modelo de extração mineral.

Multas milionárias foram aplicadas à Samarco, mas até agora o valor não foi pago.

MORADIAS

Apenas 25% das vítimas foram realocadas a casas provisórias. Das cerca de 200 famílias que perderam tudo, 150 estão em quartos de hotéis. Presidente da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG), Mário Werneck faz duras críticas à forma como essas pessoas estão abrigadas. Para ele, a retirada dos hotéis é urgente.

“As pessoas perderam tudo e ninguém está preocupado. A primeira coisa que tem que ser feita é reaver a dignidade dessas pessoas. A empresa tem que fazer um plano de liberação das casas o mais rápido possível”, afirma.

De acordo com Werneck, há muita interferência e pouca unidade. “Essa não é uma opinião só minha, mas da OAB. Isso está acontecendo porque tem a interferência de muita gente: Estado, Ministério Público, prefeitura. Tem muito cacique para pouco índio. Precisamos chegar a um denominador comum”.

Mesma opinião tem a especialista em direito ambiental e mestre em processo civil pela USP, professora Úrsula Ribeiro de Almeida. “Grande parte da ajuda veio da solidariedade de desconhecidos. Isso é ótimo, mas a empresa deveria ter arcado com tudo. É preciso criar uma força-tarefa com todos os órgãos envolvidos para que as ações exigidas sejam mais fortes e uniformes”.

Dona de bar visita ruínas do estabelecimento e revive drama: ‘Acabou tudo! Acabou tudo!’

 



BENTO RODRIGUES – No Centro de Mariana, antes de seguir viagem para Bento Rodrigues, Sandra Dometirdes Quintão, de 43 anos, é toda prosa. Ela se enche de orgulho ao falar das famosas coxinhas que eram vendidas em seu boteco, o Bar da Sandra. Mas bastou colocar o pé na estrada para ficar mais contida.

Do alto da encosta, com o distrito destruído aos seus pés, a cozinheira e ex-moradora ficou atônita. Em meio ao cenário de destruição, as mãos encardidas de barro tentavam secar as poucas lágrimas que escorriam pelo rosto.

Sandra se moveu lentamente pelos escombros rumo ao dolorido reencontro. Ao ver de perto as ruínas do imóvel – o bar era conjugado com a casa, herdada do pai – o sofrimento se evidenciou. “Acabou tudo! Acabou tudo!”, repetia com a voz embargada de tanta emoção.

Em um ato de completo desespero, pegou um pedaço de madeira e começou socar uma das paredes. Sem sucesso, partiu para uma sequência de chutes. “Tem duas panelas enterradas aqui”, contou Sandra, que precisou ser contida para evitar novo desastre, já que toda a estrutura da casa está comprometida.

O bar dela era o principal estabelecimento de Bento Rodrigues. Funcionava de domingo a domingo, 364 dias por ano – só fechava na Sexta-feira da Paixão. Aberto das 7h até o último cliente, o espaço servia pelo menos 40 refeições por dia. Mas tudo ficou no passado. A lama destruiu o fogão a lenha, levou freezeres, mesas e utensílios.

Hoje, Sandra está em um hotel junto com a filhinha de 2 anos. “Ela me pergunta todos os dias na casa de quem estamos e nunca sei o que responder”. Para conseguir sobreviver, continua a fazer as coxinhas, só que agora vende na rua, na porta de uma escola.

IGREJA

Ao lado do boteco, outra construção emblemática na história do povoado também está em ruínas. Da centenária igreja de São Bento restaram apenas a pia batismal, algumas tábuas corridas e o assoalho do altar-mor.

Irmã de Sandra e moradora de Santa Rita, vilarejo de acesso a Bento, Maria José Quintão Ferreira, de 50 anos, lamenta a devastação ao ver o templo sacro. “É muito triste. Sempre que visitava minha família fazia questão de rezar e participar das celebrações, um tempo que nunca mais voltará”.