A escada cor de chumbo da delegacia dá acesso a uma sala reservada no segundo andar, onde crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual prestam depoimentos. Diferentemente do ambiente sóbrio e cinzento do primeiro andar, ali já é possível encontrar pontos de cor logo pelo corredor, presentes nos brinquedos e objetos lúdicos que ajudam a tornar o ambiente menos hostil e mais acolhedor.

Na sala de escuta qualificada da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), em Belo Horizonte, ficam somente uma psicóloga especializada e a vítima, que pode ter desde 2 anos até 17. É de acordo com a idade e personalidade do menor que a psicóloga Jaqueline de Araújo conduz seu atendimento para colher o depoimento da vítima. Este relato, muitas vezes, pode ser a chave para a conclusão das investigações. 

"É no primeiro contato com a criança, ainda no corredor, que ela vai determinar o ritmo do atendimento, já que cada caso é um caso. Tem criança que relata mais facilmente sobre o ocorrido, mas às vezes a gente precisa brincar mais, ganhar a confiança dela primeiro para que ela possa se abrir”, explica a especialista. 

No vídeo, abaixo, ela explica como conversar com crianças que apresentem indícios de abusos:

A professora de Psicologia do Desenvolvimento das Faculdades Promove Luciana Moreira observa que, além da incapacidade natural de falar sobre os abusos, as crianças que são vítimas deste crime também costumam ser ameaçadas por seus agressores. 

"Geralmente, uma criança acima de 4 ou 5 anos, já consegue verbalizar alguma coisa. No entanto, o abusador costuma também colocar a criança em situação de refém, por se tratar de alguém que ela acredita que tem que obedecer. A vítima, então, se sente ameaçada, achando que não deve contar para ninguém sobre o abuso", explica. Por isso, é fundamental que os pais mantenham sempre uma relação de proximidade com os filhos, para que eles se sintam à vontade para relatar situações confortáveis.

O baú mágico

O amontoado de brinquedos e recursos pedagógicos dispostos na sala de escuta qualificada da Depca ajudam a criança a se sentir confortável para falar. Quando necessário, podem ser aplicados, ainda, recursos como brinquedos anatômicos ou mesmo fantoches, para ajudar a vítima neste processo. Um dos casos que mais marcou a psicóloga da delegacia envolveu justamente um fantoche, com o qual a criança conseguiu conversar sobre o abuso. 

"Era uma criança muito pequena, de uns 5 anos, que não conseguia falar, tinha muita dificuldade para relatar o ocorrido. Na sala havia um baú de madeira que eu falei que era mágico. Um lugar muito especial que as crianças guardavam os seus segredos. Eu usei um fantoche que estava dentro deste baú mágico e a criança contou o que aconteceu para o fantoche", lembra Araújo. 

Quando terminou o relato ao fantoche, a criança pediu para fechar o baú e manter seu segredo guardado lá para sempre. "Foi algo que me marcou muito pela maneira como a criança conseguiu trazer o fato. E foi muito importante para ela simbolizar aquilo, guardando o seu segredo dentro de um lugar mágico”, completa. 

EspecialistasA delegada Renata Fagundes e a psicóloga Jaqueline de Araújo 

Segundo ela, no início de seus trabalhos na delegacia, há cerca de seis anos, eram atendidas aproximadamente 40 crianças por mês. Recentemente, já houve o pico de 150 escutas qualificadas em apenas um mês. 

A delegada Renata Ribeiro Fagundes, da Depca, acredita que este crescimento se deve a um aumento das denúncias. "É algo que está sendo mais noticiado do que antes, quando este assunto era um tabu até mesmo para se comentar. Mas ainda há o problema da subnotificação de casos, principalmente de exploração sexual de adolescentes", salienta.

Denúncias

Na capital, estes depoimentos são colhidos na Depca, localizada na avenida Nossa Senhora de Fátima, 2175, e também na Vara Especializada em Crimes Contra a Criança e o Adolescente, que fica na avenida Olegário Maciel, 515. 

Para denunciar crimes contra menores, inclusive de forma anônima, Disque 100. Também é possível denunciar pelo Disque 181 ou ainda diretamente com a polícia, no 190. 

No interior do Estado, onde nem todos os municípios contam com delegacias especializadas neste atendimento, as denúncias também podem ser levadas diretamente ao Conselho Tutelar, delegacias ou batalhões da Polícia Militar.

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