A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) estima um pico da epidemia de Covid-19 para meados de julho, com 2 mil a 3 mil casos da doença registrados em um único dia em Minas Gerais. Mas especialistas alertam que é possível que haja outros picos de casos de infectados ao longo da epidemia, que pode durar por meses.

Isso quer dizer que pode haver vários momentos de estresse na assistência de saúde, com grandes demandas por leitos em hospitais tanto da rede pública quanto da particular.

“Se considerarmos pico o ponto mais alto de uma curva, poderemos ter vários picos durante um ano e meio ou dois anos, até termos uma vacina. Espera-se que haja curvas sucessivas. Sempre que houver mais isolamento social, vamos ter redução. Mas sempre que sair do isolamento, o número de casos vai subir”, afirmou o professor de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG Mateus Westin.

Segundo ele, a questão maior é quão rápida pode ser uma curva – ou seja, se houver uma velocidade maior na transmissão da doença, há uma elevação maior na curva da epidemia. “Isso depende das medidas de relaxamento implementadas e das mudanças de comportamento como um todo, verificando o que podemos fazer para ter mais segurança”.

Educação

A maior preocupação é com o retorno das aulas e uma maior transmissão entre os estudantes e, consequentemente, seus familiares. Somente na rede estadual de ensino, há 1,7 milhão de alunos que estão em casa.

Ou seja, caso as aulas sejam retomadas após a passagem pelo primeiro pico da doença, é possível que aconteça mais um momento de aumento de casos de pessoas infectadas com o novo coronavírus.

“O maior desafio é a retomadas das aulas, porque envolve o contato entre pessoas em larga escala. São muitas pessoas interagindo. Tudo teria que ser redimensionado. Poderíamos reduzir as turmas pela metade, mas ainda assim seria difícil controlar a interação entre as crianças. Entre adultos isso já é difícil”, explicou Westin.

Presidente da Associação Brasileira de Bioética e também professor da Faculdade de Medicina da UFMG, Dirceu Greco também acredita que a retomada das aulas é uma grande questão no enfrentamento à pandemia, devido à dificuldade em garantir o distanciamento social dentro do ambiente escolar e no transporte público ou privado (como vans). “A exposição de tantas pessoas poderá levar a novo pico de infecção”, disse.

Segundo ele, ainda é difícil planejar ações para minimizar o impacto que a retomada das aulas causaria na sociedade mineira. “Na prática é muito difícil, o ideal seria não marcar data para recomeçar e aguardar o desenvolvimento da pandemia para então reavaliar. Ou até, com otimismo, o desenvolvimento de algum medicamento realmente eficaz, comprovado cientificamente”, afirmou.

A Secretaria de Estado de Saúde explicou que as estimativas apresentadas são dinâmicas e dependem do transcorrer da epidemia no Brasil e em Minas Gerais e, por esse motivo, são analisadas com cautela. Disse ainda que não há como precisarmos quantos picos ocorrerão e nem mesmo se de fato ocorrerá um pico da doença ou não.