O estádio é padrão Fifa. Mas o desrespeito ao redor dele é o velho conhecido dos brasileiros. Em dias de jogos com grande público no Mineirão, os torcedores sofrem com o festival de irregularidades. Ruas e avenidas em um raio de até três quilômetros, nos bairros Ouro Preto, São José e São Luís são tomadas por carros estacionados em locais proibidos, flanelinhas, ambulantes e cambistas.
 
O Hoje em Dia acompanhou a ação dos oportunistas antes do jogo entre Cruzeiro e Cerro Porteño, na última quarta-feira. Algumas das restrições adotadas pelo “padrão Fifa”, na Copa das Confederações, como tráfego, estacionamento e ambulantes ainda são adotadas, porém burladas.
 
Com a limitação de vagas de estacionamento dentro do estádio e proibição nas vias próximas, resta aos torcedores estacionarem em locais proibidos ou distantes, quando não são extorquidos pelos flanelinhas. Influenciados pelos guardadores, os motoristas param sobre calçadas, recuos de passeios e em frente a garagens.
 
Sem garantias
 
Já quem opta por deixar o carro em áreas privadas não tem garantia contra danos ou furtos.otes vagos e outros espaços comerciais viram local de parada, mesmo sem o alvará da prefeitura.
 
Até imóveis abandonados, como na esquina das avenidas Alfredo Camarate e Otacílio Negrão de Lima, são ocupados pelos flanelinhas. No fim das contas, se paga mais caro para estacionar, em média R$ 50, do que o valor do ingresso, que neste jogo era de R$ 40.
 
Além disso, ambulantes vendem alimentos e bebidas livremente, usando veículos como depósito de estoque. Ao mesmo tempo, cambistas compram e vendem ingressos sem incômodos.
 
30 presos por jogo
 
A Polícia Militar e a fiscalização da prefeitura tentam algum controle, mas é difícil coibir os centenas de irregulares. O tenente Rogério Mol, do 34º Batalhão da PM, fez um desabafo ao deter um dos flanelinhas na noite de quarta. “Prendemos quase 30 deles por jogo, mas não adianta. Eles apenas assinam um papel e são liberados”.
 
Um dos fiscais da prefeitura, que pediu para não ser identificado, disse que é impossível impedir a venda dos pequenos informais e o foco são os veículos usados para reabastecimento dos ambulantes. 
 
Também não são feitas vistorias para verificar exploração comercial de estacionamentos em outros tipos de comércios.
 
Torcedores relatam achaque de flanelinhas
 
O jogo começa às 22h, mas desde as 18h, mais de uma centena de flanelinhas “organizam” a avenida Antônio Abrahão Caram, que dá acesso ao Mineirão. Estacionar ali é proibido, mas não há fiscalização para impedir. Quando o torcedor para o carro, eles se aproximam pedindo para “vigiar” em troca de um valor adiantado.
 
A quantia varia, conforme a vítima e o jogo, entre R$ 10 e R$ 50. Torcedores relatam cobranças de até R$ 80. Quem não paga é ameaçado, como a servidora pública Henivane Reis Pinheiro, de 34 anos. Ela relata ter sido acuada por um flanelinha. “Me disse que se eu não pagasse, saberia o que aconteceria. Tive que ceder”, afirmou.
 
Basta o pagamento, para o flanelinha partir para o próximo torcedor. À medida que as vagas são ocupadas, mesmo em pontos proibidos, os flanelinhas se deslocam na Abrahão Caram, sentido avenida Antônio Carlos, e para as vias internas dos bairros. Pouco depois do início do jogo, todos os “guardadores de carro” vão embora sem oferecer a prometida “vigia”.
 
TÁTICA
 
Henivane agora adota a estratégia do amigo, o bancário Marcelo Fernandes de Macedo, de 37 anos, que chega cedo, se recusa a parar, mas aguarda dentro do carro até os flanelinhas se distanciarem. “Se tiver a presença da polícia, eles não agem, mas sem a PM, é território livre”, lamentou.
 
Quem chega mais tarde não encontra a vaga e é obrigado a parar longe do estádio. O universitário Guilherme Henrique Leite, de 22 anos, parou a dois quilômetros de distância. “Tentei mais perto. Não teve jeito. Quando achei um espaço, os flanelinhas chegaram a brigar entre eles. Me pediram R$ 20. Não aceitei e sai”, contou.
 
O Hoje em Dia fez contato por telefone com os oficiais da PM para repercutir as ações dos flanelinhas e estacionamentos irregulares, mas a chefe do Comando de Policiamento da Capital, coronel Cláudia Romualdo, os assessores de imprensa tenente-coronel Alberto Luiz Alves e major Gilmar Santos, além do comandante do Batalhão de Policiamento Especializado, coronel Antônio de Carvalho Pereira, não atenderam.
 
Ambulantes fazem a festa no entorno do estádio
 
Além da proibição de estacionamento, ambulantes são impedidos de atuar próximos ao Mineirão. Porém, a medida fica só no papel. Dezenas de carros viram lanchonetes e outros, com pequenos isopores, comercializam toda sorte de produtos, alimentos e bebidas. A fiscalização conseguiu flagrar uma Kombi que servia como depósito de bebidas. O material foi recolhido e o comerciante informal só consegue recuperar a mercadoria pagando multa. 
 
Devido ao feriado, a assessoria de imprensa da prefeitura não se pronunciou sobre os informais ou informou quantos estão cadastrados e o que é feito com o material apreendido.
 
RESTRIÇÃO
 
A justificativa da BHTrans para restringir o estacionamento no entorno do Mineirão é “garantir a circulação segura de veículos e pedestres, assim como o acesso do transporte coletivo e veículos de emergência, além de manter a fluidez do trânsito”. Porém, nenhum dos benefícios é notado em dias de jogos com grande público.
 
O tráfego torna um risco a qualquer tentativa de pedestres atravessar ruas e avenidas. Além disso, as filas de carros deixam lento o trânsito local. Quem quer acessar o estacionamento interno do estádio, com capacidade para 2.670 carros pelo valor de R$ 30 – o único que oferece seguro em casos de danos ou furtos – chega a demorar quase uma hora para estacionar.
 
Apesar da reclamação de torcedores de que o espaço é aberto tarde, a Minas Arena alega que segue as resoluções dos clubes, polícias, Corpo de Bombeiros, BHTrans, Federação Mineira de Futebol, Minas Arena etc.
 
Quanto aos estacionamentos em lotes particulares que atuam sem o alvará necessário, a prefeitura não se pronunciou. Um dos fiscais ouvidos pela reportagem informou que é necessária a autorização especial para qualquer atividade de exploração comercial, mesmo que eventual. No entanto, “não há orientação das chefias para vistoriarem esse item e o foco é contra os ambulantes”, disse o profissional, que não se identificou.