Três casos em menos de uma semana e o mesmo fim trágico. Parece incomum, mas não é. Casos de crianças esquecidas dentro de carro por várias horas, culminando com a morte delas, se repetem todos os anos. Dois deles aconteceram na quarta-feira – um em Belo Horizonte e outro em São Bernardo do Campo (SP). O terceiro, no Rio de Janeiro, no último dia 13. De acordo com especialistas, o estresse dos pais causado pelo dia a dia atribulado e a mudança de rotina podem estar associados a esse tipo de esquecimento grave.
 
“Boa parte desses episódios decorre da correria cotidiana a que as pessoas são submetidas. Cheias de atividades, elas pulam de uma tarefa para a outra e não dão sequência ao que estão fazendo. Quando se trata de levar o filho para a escola, as consequências podem ser drásticas”, frisou o presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, Maurício Leão.
 
Cansaço excessivo, insônia, irritabilidade, tontura e crises de ansiedade são sinais de alerta. “A pessoa muito cansada, por exemplo, pode ter o raciocínio prejudicado, contribuindo para o esquecimento”, observou o especialista. 
 
A mudança de rotina é outro fator causador de episódios semelhantes. Devido ao volume de tarefas que os pais desempenham ao longo do dia, eles acabam automatizando o que precisam fazer. “Se há alguma alteração, as pessoas não memorizam”, explicou a presidente do departamento de neurologia da Associação Médica de Minas Gerais, Rosamaria Peixoto Guimarães. 
 
No caso da tragédia em BH, Renata Ferreira, a mãe de Clarisse - que iria completar 2 anos em janeiro -, só notou que havia esquecido a garotinha quando foi buscá-la na creche. A técnica em eletrônica não se lembrava de ter colocado a pequena no carro, já que isso era atribuição do pai. Naquele dia, ele estava viajando. “Para ela , a filha não estava no veículo, uma vez que nunca tinha memorizado a atividade, que era tarefa do marido”, destacou Rosamaria.
 
Consequências
 
Apenas uma hora em um lugar pequeno fechado é suficiente para causar a morte de uma criança por hipertermia (aumento da temperatura do corpo). Por meio do suor, ela elimina água mais facilmente do que um adulto. “Em um espaço fechado com a temperatura ambiente de 25 graus, por exemplo, a temperatura corporal pode chegar a 48 graus. Esse quadro é incompatível com a vida, principalmente de uma criança”, alertou a presidente do comitê de segurança infantil da Sociedade Mineira de Pediatria, Cynthia Regina Tangari Coelho.
 
Para evitar esse tipo de situação, a especialista recomenda nunca deixar a criança sozinha no carro, mesmo que seja por poucos minutos. “Você pode sair para ir na padaria e esquecer dela, que ficou no veículo. Depois de alguns minutos, você pode encontrar a criança em crise convulsiva e até conseguir reverter a situação. No entanto, na maioria dos casos, os pais chegam quando não há mais o que ser feito”, ponderou. 
 
OUTROS CASOS
 
EM SÃO BERNARDO DO CAMPO
Uma infeliz coincidência aconteceu exatamente na última quarta-feira nessa cidade, na Grande São Paulo. Uma menina de dois anos e quatro meses também morreu após ser esquecida pelo pai dentro do carro. O funcionário público Rodrigo Machado foi autuado por homicídio culposo e liberado após pagamento de fiança de R$ 725. À polícia, ele disse que havia saído do trabalho no horário de almoço para buscar a filha na casa da avó e, depois, deixá-la na escola. No entanto, o servidor acabou se esquecendo da criança, que estava dormindo na cadeirinha no banco traseiro do carro, e foi direto para o serviço. Somente por volta das 18h Machado foi até a escola da menina para buscá-la. Lá, foi informado pelos funcionários que não havia deixado a filha no colégio naquele dia. Só então teria se dado conta que a havia esquecido no veículo.
 
NO RIO DE JANEIRO
Na sexta-feira passada, um menino de 2 anos morreu depois de ficar por cerca de duas horas dentro de um carro que fazia transporte escolar irregular no Jardim América, na zona Norte da cidade. O garoto Gabriel Martins de Oliveira Alves da Silva era transportado pela motorista Cláudia Vidal da Silva, que alegou ter desmaiado dentro do veículo. Ao recuperar a consciência, ela disse ter constatado que a vítima passava mal. No entanto, a polícia informou que Cláudia deixou o menino no carro para fazer as unhas. Gabriel chegou a ser encaminhado para um posto médico em Irajá, mas não resistiu e morreu. Um dia após a morte, a mãe do menino, Karla Martins, usou uma rede social para desabafar sobre a criança. “Meu filho, minha vida. O céu está em festa porque mais um anjo de luz está nos braços do Pai. Biel, mamãe te ama muito. Sua morte não ficará impune. A Justiça de Deus será feita”, escreveu a dona de casa. A Polícia Civil investiga se Cláudia, que não teria autorização para exercer a profissão, cometeu o crime de abandono de incapaz.
 
EM NOVO HAMBURGO
Em 5 de maio de 2011, um bebê de sete meses morreu após ser esquecido pelo pai dentro do carro nessa cidade localizada no Rio Grande do Sul. Portadora da Síndrome de Down, a criança deveria ter sido levada pelo pai à creche após uma consulta médica. Como estava atrasado para o serviço, ele optou em ir direto para o trabalho, e acabou esquecendo o bebê dentro do carro no estacionamento. Após cinco horas sob sol forte, a menina foi encontrada desacordada e encaminhada a uma clínica próxima. Porém, não resistiu e morreu. 
 
EM CARAGUATATUBA
Uma menina de três anos foi encontrada morta em 11 de janeiro de 2011 no município do litoral Norte de São Paulo. O resgate foi acionado após familiares encontrarem a criança inconsciente dentro do carro dos pais, estacionado na garagem da casa. A menina já estava sem vida quando uma equipe da corporação foi até o local. Os pais disseram à polícia que chegaram de um show, por volta das 5h, e que a criança havia ficado em casa. O casal acordou por volta do meio-dia e encontrou a filha no carro. Segundo eles, a menina tinha o costume de brincar no veículo.