De acordo com o governo de Minas, 234 mortes pelo novo coronavírus foram confirmadas no Estado até esta terça-feira (26). Mas o número de pessoas que perderam a vida após contrair a doença pode ser maior, de acordo com uma pesquisa realizada por um grupo de cientistas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). O estudo indicou que houve um aumento de 648% no número de mortes causadas pela Síndrome Respiratória Grave Aguda (SRAG) entre janeiro e abril de 2020 em comparação com o mesmo período do ano anterior.

A síndrome pode ser provocada por diferentes agentes, como Influenza, Metapneumovírus e até SARS-CoV-2 (nome dado ao novo coronavírus). O estudo da UFU  indicou que é possível que haja uma subnotificação nos óbitos por Covid-19 em Minas, porque algumas mortes poderiam estar sendo registradas de maneira diferente por falta de diagnóstico laboratorial.

"Nós analisamos os óbitos que tenham causas com alguma compatibilidade clínica com Covid-19 e, eventualmente, estariam sendo registrados de forma errônea; por exemplo, por indisponibilidade de diagnóstico laboratorial", explicou o coordenador do estudo, professor Stefan Vilges de Oliveira, em nota publicada no  portal da universidade

Os pesquisadores analisaram diferentes dados, como o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), o Sistema de Informação de Agravo de Notificação (Sinan) e a plataforma Infogripe, gerenciada pela Fiocruz, além do Portal de Transparência do Registro Civil.

Um dos dados utilizados pelos pesquisadores pode facilmente ser acessado pela população. Pelo Portal de Transparência do Registro Civil, é possível verificar que houve um aumento nos registros de SRAG em atestados de óbitos entre 16 de março e 26 de maio – foram 36 em 2019 e 173 em 2020. O levantamento mostra ainda que 445 registros em Minas atestaram a Covid como causa da morte – número 47% maior do que os 234 óbitos confirmados pela Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG).

Segundo o levantamento feito em cartórios, em Minas houve uma queda de 22,8% no número de mortes por pneumonia e 21,7% nos óbitos por insuficiência respiratória, levando-se em conta atestados registrados entre 16 de março e 26 de maio de 2020, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

No boletim epidemiológico desta terça-feira, a SES mostra que houve um incremento de 592% nas notificações de SRAG em Minas de janeiro até agora, em comparação ao mesmo período do ano passado. A secretaria já explicou reiteradas vezes que o aumento se deve a uma maior sensibilização dos médicos em realizar as notificações, por causa do contexto atual.

Outros dados

O secretário de Estado de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, afirmou que não se deve fazer uma análise da epidemia levando-se em conta apenas um dado – no caso, o aumento no número de mortes registradas por SRAG. “Quem avaliar os gráficos com dados dos cartórios verificará que a mortalidade por todas causas respiratórias está aquém de 2019”, afirmou o secretário, durante coletiva nesta terça-feira (26).

O subsecretário em Vigilância de Saúde, Dario Ramalho, explicou que a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) acompanha o aumento nas notificações de mortes por SRAG, mas também está atenta a outros dados importantes para compreender o rumo da epidemia.  “Os dados de SRAG teriam aumentado, mas quando você pega todas as causas respiratórias somadas, como pneumonia e até o Covid, a causa respiratória cai entre 2019 e 2020”, afirmou Ramalho.

“O percentual de Covid nas amostras de SRAG era muito baixo. Os leitos naquele momento em que a curva subiu estavam com taxa de ocupação muito baixa. O número de total de óbitos caiu. A gente tem uma série de análises que, quando vistas do ponto de vista mais global, nos permitem enxergar que a ascensão por notificação de SRAG não se traduzia em Covid”, completou o subsecretário. 

Carlos Eduardo Amaral informou que a secretaria está preparando uma ampla nota técnica para tirar dúvidas da população sobre a Covid-19 e a SRAG, para que mais pessoas possam se esclarecer sobre o assunto. Ele adiantou também que a SES voltará a mostrar dados sobre óbitos investigados e descartados em relação ao novo coronavírus nos boletins epidemiológicos.

Testagem

Questionado se é possível que haja uma subnotificação nas mortes por Covid-19 em Minas, o infectologista e professor da Faculdade de Medicina da UFMG Unaí Tupinambás explicou que é possível que isso esteja acontecendo aqui e em vários países do mundo.

Minas tem um problema grave que é a falta de testes, fator que pode levar a uma subnotificação de óbitos por Covid. É preciso melhorar nossa capacidade de testes pois só com isso poderemos enfrentar a epidemia de maneira mais certeira”, afirmou o infectologista.

Para Unaí, os testes de PCR (que detectam material genético do vírus na secreção do paciente) deveriam ser realizados em todas as pessoas que procuram atendimento médico com sintomas da doença, mesmo que sejam leves. “Se fizéssemos isso, teríamos um período mais curto da pandemia e a economia poderia se recuperar mais rapidamente. Tem que testar para isolar as pessoas com sintomas e ter um maior controle sobre os casos”, explicou.

O secretário de Estado de Saúde já reconheceu que tem capacidade para fazer mais testes, mas faltam insumos, como o swab (usado na coleta de secreção). O Estado comprou 140 mil testes PCR, mas eles não devem ser utilizados neste momento. Por enquanto, os exames são feitos em pessoas hospitalalizadas com graves sintomas, profissionais de saúde e segurança pública, asilados e detentos. 

Leia mais:
Problemas circulatórios aumentam no inverno; veja como se cuidar
Minas já pode ter 75 mil casos da Covid, com apenas 10% confirmados