De nojento a salvador. O suor pode ser capaz de detectar uma das doenças mais temidas pela população: o câncer. É o que indica uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP). O estudo apontou que as gotinhas produzidas pelas glândulas sudoríparas podem diagnosticar tumores em substituição a exames simples, às vezes adiados por quem tem medo das agulhadas.

Para chegar a esse resultado, a cientista Fernanda Ferreira da Silva Souza Monedeiro coletou amostras do fluído de 64 pessoas no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Dessas, 32 tinham carcinomas e o restante era saudável.

A ideia foi verificar os compostos voláteis produzidos pelos organismos. Esses compostos, de acordo com o professor Bruno Spinosa De Martinis, do Departamento de Química da USP, têm baixo ponto de ebulição e peso molecular. “Ou seja, se evaporam mais facilmente em temperaturas baixas e são formados durante o processo de metabolismo das células”, explicou o docente, que foi orientador de Fernanda Ferreira no levantamento.

Pelas análises, constatou-se que a transpiração de quem estava doente apresentou compostos com perfil diferenciado e em concentrações mais elevadas do que os produzidos por pessoas sem a enfermidade.

Método

O mecanismo de investigação também é considerado mais fácil e menos invasivo, de forma a não causar dor no momento da coleta. O suor é colhido por meio de um adesivo colado no corpo do voluntário. 

Depois, o material é armazenado em um frasco de vidro, fechado hermeticamente. O recipiente, então, é aquecido à temperatura constante por dez minutos. A porção gasosa, resultante da técnica, é aspirada por uma seringa e levada para análise.

Futuro

Bruno De Martinis disse que foram verificadas pessoas com vários tipos de tumores, como o linfoma e de próstata. Nesse último, o segundo mais comum entre os homens, o diagnóstico pelo suor é aposta para substituir a identificação da enfermidade pelo Antígeno Prostático Específico, por meio do exame de sangue.

Apesar de o resultado ter se mostrado promissor, o professor da Universidade de São Paulo assegura a necessidade de mais estudos. É preciso aprofundar a análise dos níveis ideais dos indicadores para saber a extensão e o local do tumor.

Agora, a equipe analisa a saliva dos pacientes para verificar se essa secreção apresenta os mesmos compostos voláteis encontrados na transpira-ção. O teste é considerado pelos estudiosos ainda menos invasivo no diagnóstico de tumores.

O benefício da pesquisa alcança toda a sociedade, frisou Bruno De Martinis. “Pois há possibilidade de, no futuro e após mais análises com um maior número de pacientes, termos um diagnóstico rápido, em conta e menos invasivo”, avalia.

Atualmente, tumores podem ser detectados por meio de exames de sangue, de fezes, biópsia e até toque retal, no caso de suspeita de carcinoma colorretal.

*Com Renata Galdino