A cada dez infrações de trânsito em Minas, quatro são por excesso de velocidade. Só no primeiro semestre deste ano, mais de 1,4 milhão de motoristas foram multados, conforme dados do Detran. Capaz de provocar acidentes e até matar, o comportamento de quem trafega acima do limite permitido na via volta à tona diante da possibilidade de restringir a utilização dos radares – sobretudo nas estradas, onde os abusos são mais frequentes.

Após o governo federal sinalizar que vai suspender o uso dos equipamentos móveis na malha controlada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), aparelhos foram desligados no Anel Rodoviário devido a pendências judiciais. Para especialistas, a situação preocupa, pois pode favorecer a imprudência dos condutores.

Em julho, o Hoje em Dia mostrou um salto de 20% nos acidentes com vítimas registrados na rodovia. Ontem, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit) confirmou que os radares estão inoperantes em um trecho de 17,5 quilômetros, entre os bairros Jardim Vitória (região Nordeste de BH) e João Pinheiro (Noroeste). 

A contratação de quem vai operar os controladores de velocidade depende de aval da Justiça. Empresas questionam o resultado do certame. Detalhes não foram informados. Até o momento, não há previsão de retorno da fiscalização.

3,3 milhões de  infrações de trânsito foram cometidas em Minas no primeiro semestre; mais de 1,4 milhão é por desrespeito ao limite de velocidade

Policiamento

Dez aparelhos foram desligados no Anel Rodoviário. Fontes ouvidas pela reportagem garantem que o cenário se arrasta desde abril, mas a informação não foi confirmada pelo Dnit. Ex-comandante de policiamento na estrada, o tenente Geraldo Donizete atuou durante 16 anos no local. Ele lamenta a situação e afirma que os aparelhos – instalados a partir de 2009 – foram fundamentais para melhorar a segurança no corredor.

“Os radares tiveram um resultado extremamente positivo. O número de acidentes diminuiu, mas o mais importante é que a gravidade deles e as mortes também tiveram queda”, reforçou. 

Para Donizete, enquanto não há uma retomada da operação, o patrulhamento precisa ser intensificado. “A presença policial é importante para suprir a ausência, principalmente nos pontos mais críticos, como a descida do Betânia, o Jardim Vitória e próximo à avenida Cristiano Machado”.

Atual responsável pelo policiamento na via, o tenente Luiz Fernando Ferreira confirma a importância dos equipamentos. Segundo o militar, o excesso é percebido, na maioria dos casos, à noite, quando o volume de veículos é menor. “Não é a principal causa de acidentes, mas quando há uma ocorrência por velocidade incompatível, as consequências são graves”, destacou.

22% das mortes  nas estradas federais ocorreram após acidentes provocados por excesso de velocidade

Sequelas

Vice-presidente da Associação Mineira de Medicina do Tráfego (Anmetra), João Luís Pimentel lamenta a ausência de radares e a possibilidade de suspensão dos aparelhos móveis nas estradas. O especialista reforça que, quanto maior a velocidade, mais grave será o acidente. “As lesões tendem a ser piores e geram sequelas sérias, como amputação de membros”.

A Polícia Militar Rodoviária informou que está intensificando as operações com blitze para orientar, fiscalizar e conscientizar os motoristas. O Dnit não se posicionou sobre ações preventivas. O órgão informou apenas que “a contratação (de radares) será feita após decisão judicial e administrativa”.

Relatório da PRF mostra que 680 acidentes foram provocados por veículos que estavam com a velocidade acima do permitido

Mortes

Sessenta e seis pessoas morreram nas estradas de Minas após acidentes provocados por excesso de velocidade. A constatação está em um estudo feito pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), que leva em conta as estatísticas do primeiro semestre deste ano. Do total de 4.031 colisões, capotagens e atropelamentos – dentre outras ocorrências – 680 tiveram como causa presumida o desrespeito ao limite permitido na pista.

Consultor em transporte e trânsito, Silvestre de Andrade considera o problema grave. Ele alerta que a imprudência, aliada à ausência dos radares, pode ser fatal. “Nesses casos, é válido lembrar que as vítimas não são apenas aquelas que cometem a infração, mas inocentes, como os pedestres e quem está respeitando a legislação”. 

Andrade também acredita que a retirada dos aparelhos irá, seguramente, aumentar os índices de acidentes. “A mensagem que passa ao condutor é de afrouxamento da fiscalização, de que seguir as leis de trânsito não é importante”, avalia. 

Professor de segurança viária do Cefet-MG, Agmar Bento contesta a ideia de indústria da multa utilizada pelo governo federal e reforça a importância do equipamento nas rodovias. “Se há infração, é porque houve desrespeito. O resultado é positivo e precisamos é ampliar os radares, não reduzi-los”. 

O especialista ainda destaca que os controladores de velocidade tornam-se importantes devido à escassez de agentes dos órgãos públicos. “Não há equipes suficientes para fiscalizar de forma eficiente. O radar é o principal mecanismo de suporte neste sentido”.

O governo federal foi procurado para comentar as críticas sobre a retirada dos radares, mas não respondeu à reportagem até o fechamento desta edição.