Ao longo de cinco meses, 40 detentos do Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, produziram mais de 2 mil origamis - arte secular japonesa de dobrar papel - que compõem as três obras que abrem a exposição "Vidas Interrompidas", que estreou no último sábado no Museu Mineiro, na capital. As obras, que representam a vida, a morte e o renascimento, homenageiam as centenas de vítimas dos rompimentos das barragens de Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Grande BH, e do Fundão, em Mariana, na região Central do Estado. 

A exposição é gratuita e fica em cartaz na Sala de Exposições Temporárias II do Museu Mineiro até 29 de setembro. No museu, que está entre as 15 instituições que integram o Circuito Praça da Liberdade, o público pode apreciar, além da arte secular japonesa, projeções virtuais de fotografias e imagens do próprio rio Paraopeba atingido pela lama. Conforme a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), o objetivo é trazer para o visitante a perspectiva do recomeço, em um movimento de luta por paz e longevidade, símbolo do origami.

Warley Durval, de 19 anos, está preso há cerca de um ano e teve autorização judicial para estar presente na abertura da mostra. Lá, ele contava aos visitantes, orgulhoso, o significado de cada uma das obras. “O projeto 'Mãos pela Paz' mudou a minha vida. Me tirou do pavilhão e me levou para o ateliê. Descobri o que realmente é importante na vida através da arte da dobradura. Pegamos um pedaço de papel e damos a ele vida. Diferente do que muitos falam, o sistema prisional não é uma escola do crime. Foi dentro do Ceresp que aprendi a valorizar o que realmente é importante", conta.

O detento Lucas Brendom, de 21 anos, também participou da abertura da exposição. A mãe dele, Wildimara, se emocionou durante o evento. “Chega a doer o meu coração. Não sabia que o meu filho era capaz de fazer um trabalho tão delicado. Sinto que meu filho está mais calmo, feliz e sábio. Tenho certeza que é resultado dessa oportunidade de participar deste projeto. Estou muito orgulhosa dele. Pra quem não sabia fazer um aviãozinho de papel e hoje ter seu trabalho exposto em um museu, é muito gratificante”, disse a mulher.

A idealizadora e mentora do projeto, a pedagoga do Ceresp e fundadora do "Mãos Pela Paz", Rosemary Ramos, disse que é inexplicável a sensação de mostrar par a sociedade que quem está preso também é sensível à dor do próximo. "Eles, que também tiveram, de certa forma, suas vidas interrompidas pelo erro que cometeram, se uniram para pensar em uma homenagem à todas as pessoas que perderam as suas vidas nas tragédias de Mariana e Brumadinho. Hoje tenho a certeza de que a reinserção por meio da arte vale a pena", orgulhou-se. 

Além das obras, a exposição "Vidas Interrompidas" conta ainda com fotografias de Bárbara Ferreira.

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