A partir da prisão de quatro pessoas em Belo Horizonte, suspeitas de tentarem obter passaportes com documentos falsos em fevereiro, a Polícia Federal passou a investigar um esquema de falsificação onde "pacotes completos" de viagens clandestinas aos Estados Unidos eram comercializados a cerca de US$ 20 mil. 

Na manhã desta sexta-feira (24), um homem de 64 anos apontado como um dos maiores falsificadores de documentos da região de Governador Valadares foi preso de forma preventiva. O suposto falsário já tem 35 passagens pela polícia e já cumpriu mais de 10 anos de prisão. 

Segundo o delegado Cristiano Campidelli, da PF em Valadares, durante os interrogatórios dos presos em BH, eles apontaram o suspeito de Valadares como o homem que forneceu os documentos falsos. Além disso, um motorista contratado pelo suposto falsário também foi preso; ele fazia o transporte dos clientes entre Valadares e BH para a obtenção dos documentos. Os cinco detidos reconheceram o suspeito como o homem que fornecia o material falsificado. 

Os quatro detidos em BH são um jovem de 22 anos que se fazia passar pelo filho menor de um homem de 42 anos, também preso, e um suspeito de 27 anos que se fazia passar pelo filho menor de outro homem de 52, outro detido. 

O objetivo de constar nomes de "falsos" menores nos documentos para os passaportes era garantir a permanência dos mineiros nos Estados Unidos, devido a um esquema conhecido como "cai-cai".

É que naquele país, filhos menores não podem ser separados dos pais, até que o presidente Donald Trump decretou que os imigrantes ilegais fossem apresentados à Justiça e encaminhados para prisões enquanto seus filhos iam para um abrigo. Mas, após os vídeos de pais e filhos separados nas fronteiras norte-americanas viralizarem, gerando uma comoção mundial, a política foi revogada e o esquema "cai-cai" voltou à tona, no qual os imigrantes se apresentam à polícia, pagam fiança e, então, se unem aos seus filhos novamente. 

"O objetivo do esquema do falsário é facilitar que as pessoas entrem clandestinamente nos Estados Unidos por rotas alternativas e, uma vez lá, eles mostram nos documentos que teriam filhos menores para permanecer no país. Após o Trump mandar prender os pais e separá-los dos filhos, houve uma pressão mundial e isso parou, mas algumas pessoas estão se aproveitando dessa questão humanitária", explica Campidelli. 

Para além da falsificação dos documentos, o esquema dos passaportes, de acordo com o delegado, é muito maior e envolve o transporte das pessoas, a organização das rotas alternativas, a compra das passagens aéreas, "o pacote completo", que pode custar cerca de US$ 20 mil. 

"Só que essas pessoas que tentam atravessar para os Estados Unidos clandestinamente, muitas vezes, são presas ao chegarem lá ou sequestradas pelos coiotes, ou podem até morrer na travessia pelo mar. Infelizmente, em muitos casos, elas acabam comprando um sonho e recebendo um pesadelo", conclui. 

A tendência de migração de moradores de Governadores Valadares para os Estados Unidos é histórica e rendeu até a alcunha de "valadólares", em referência ao dinheiro enviado pelos mineiros que se mudaram para o país aos familiares deixados em Valadares.  

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