O suspeito que se passou por médico e fez atendimentos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) São Benedito, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que tem apenas 22 anos, se apresentou nesta quarta-feira (12) e prestou depoimento à Polícia Civil (PC). Após ser ouvido, ele foi liberado e aguardará a investigação em liberdade. O rapaz ficou na unidade de saúde por cerca de 2h antes de ser descoberto pelas enfermeiras, que perceberam problemas na prescrição de medicamentos para pelo menos quatro pacientes atendidos por ele no sábado (8). Em sua versão, ele planejou tudo sozinho após procurar telefones na internet. 

A delegada Adriana das Neves Rosa, da 1ª Delegacia do Palmital, foi a responsável pela oitiva do jovem que, segundo ela, é bastante frio e calculista e estava muito calmo no momento em que se apresentou. "Ele fala que teve um problema de saúde recente e que precisou tomar algumas medicações. A partir daí ele teve interesse em ingressar na medicina, planejando e fazendo tudo sozinho, em sua versão. Os familiares dele que foram ouvidos se mostraram surpresos com o que ele fez e disseram que ele não tem nenhum problema psiquiátrico diagnosticado", explicou a policial. 

Em seu depoimento, o falso médico contou com precisão como fez para conseguir ser incluído no quadro dos médicos da UPA. Após pegar um telefone da prefeitura pelo Google, o rapaz ligou no número fixo e perguntou o nome da pessoa que atendeu, desligando em seguida. O primeiro contato foi feito somente para ter o nome de alguém que realmente trabalhasse no município. 

"Ele já sabia que uma médica precisaria ser substituída, então ele ligou na UPA, se passando pelo funcionário da prefeitura de quem ele tinha pego o nome, falando que tinha dois médicos que poderiam atuar no plantão. Foram passados os contatos dele e de uma médica real, mas com um telefone que ele sabia que não atenderia, para ele ser a única opção", conta a delegada Adriana.

A policial explica ainda que a Prefeitura de Santa Luzia informou que existe um cadastro de cerca de 200 médicos que estão aptos para atuar, sendo que 80 deles são os que costumam fazer os plantões na UPA São Benedito. "Quando estes não podem trabalhar, eles acionam um dos substitutos destes 200. Quando ele ligou passando os contatos, os responsáveis deduziram que tratava-se de profissionais desta lista", disse. 

Atuação 

No sábado, o jovem chegou na unidade de saúde completamente paramentado como um médico, com um jaleco com seu nome escrito, com um carimbo médico e, também, um estetoscópio. Após se apresentar como o clínico-geral substituto da médica que faltou na data, ele foi levado por funcionários até o coordenador da unidade que, como já esperava que um médico com o nome dele chegaria, o levou até o escritório. Nenhum documento que comprovasse sua formação foi solicitado. 

O suspeito chegou a atender entre 4 e 5 pessoas durante as cerca de 2h que ele ficou na unidade, até que as enfermeiras viram as receitas e perceberam que havia alguma inconsistência. "Elas levaram para a superior delas que repassou ao outro médico plantonista, que confirmou que algo estava errado. Foi então que o atendimento por ele foi suspenso. Todas as pessoas que foram atendidas por ele teriam passado por uma reavaliação", pontuou a delegada Adriana das Neves Rosa. 

O falso médico, que é morador de BH, mas tem parentes em Santa Luzia, poderá responder por exercício ilegal de profissão, que tem pena de 15 dias a três meses de prisão, e por usurpação de função pública, que pode render e 2 a 5 anos de detenção. Entretanto, a corporação ainda investiga se, durante sua atuação, ele cometeu outros crimes, como se ele colocou a vida de alguém em risco. 

Prefeitura poderá responder criminalmente

Ainda conforme a delegada responsável pela investigação, a responsabilidade da Prefeitura de Santa Luzia também é apurada. "Todos os fatos estão sendo apurados, como por exemplo se ele teve alguma informação privilegiada de funcionários. Porém, pelo que ele relatou, ele usou de sua astúcia, solicitando nomes, colhendo informações. Mas, com relação à essa eventual falta de controle da UPA e da prefeitura, também vamos apurar", concluiu a policial. 

Por ter se apresentado espontaneamente, a PC decidiu não pedir a prisão temporária do falso médico, que aguardará a apuração em liberdade. "Ele está colaborando com as investigações. Segundo ele, essa foi a primeira vez. Ele até tentou, antes de procurar a UPA de Santa Luzia, fazer contato na UPA da Pampulha, mas foi informado de que não haveria substituição e que os médicos eram todos concursados, mas ainda vamos verificar isso. A única passagem do suspeito foi quando era adolescente, por pular o muro e fugir da escola", finalizou Adriana. 

O Hoje em Dia procurou a prefeitura da cidade, que informou por meio de nota que está acompanhando a investigação e aguarda a conclusão do inquérito para se pronunciar. "Esclarecemos ainda que não se trata de qualquer pessoa ligada à administração municipal. O falso médico negou que teve acesso facilitado por ajuda de funcionários do local,  e disse que agiu sozinho na farsa, ludibriando funcionários com falsas histórias, sendo descoberto logo em seguida", concluiu o município. 

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