O anúncio de um Regime de Estudo não Presencial para os alunos da rede estadual, que terá início na próxima segunda-feira (18) por meio de teleaulas, aplicativo e estudos dirigidos apresentados em um site, foi recebido com muitas considerações por professores e especialistas. O fato de boa parte dos estudantes não ter acesso à internet ou ao sinal da Rede Minas (que atinge 23% dos municípios mineiros) foi apontado por muitos como um empecilho para que o ensino remoto aconteça de maneira satisfatória para todos.

Para Vitória Izaú, professora efetiva do curso de Pedagogia da Universidade do Estado de Minas Gerais, nos diz que é importante lembrar que nem tudo que está dentro do escopo do campo presencial, sobre concepção pedagógica, filosofia, metodologia e didática, pode ser convertido facilmente em um modelo online. "O ensino a distância exige formação dos professores, investimento em estrutura e pesquisa de conhecimento a partir dos perfis dos alunos”, afirmou a professora.

Carlos Roberto Cury, professor emérito da UFMG, vê com bons olhos o esforço da secretaria em manter um vínculo com os estudantes que estão em casa, para reduzir uma tendência de evasão escolar. Mas, segundo ele, a plataforma acaba evidenciando uma desigualdade social enorme presente no Estado. A rede estadual conta com 1,7 milhão de alunos em 853 municípios. 

“Como fomos pegos de surpresa, o Governo não está oferecendo a educação a distância, porque isso pressupõe planejamento. É um ensino remoto, precário e limitado, que vai explicitar a desigualdade educacional, além da desigualdade social. Há muitas pessoas sem acesso à internet ou que ainda não sabem mexer nas plataformas e aplicativos”, afirmou o professor.

Para ele, é válido que a secretaria promova o ensino remoto, mas sem considerar isso como parte do semestre letivo. Ou seja, o ideal seria que o programa “Se Liga na Educação” não fosse computado dentro das 800 horas obrigatórias do ano letivo, porque não será possível saber quantos alunos realmente tiveram acesso ao material audiovisual.

Até mesmo os pais de alunos têm considerações ao programa, já que muitos alunos não têm acesso à internet. Mário de Assis, presidente do Movimento Pais e Avós Sentinelas pela Educação, acredita que deveria se investir mais na abrangência da transmissão das teleaulas. Para ele, o Governo poderia procurar por parceiros para garantir que as teleaulas realmente cheguem a todos os alunos, já que a Rede Minas não é exibida em muitas regiões do Estado.

“Essa transmissão tem que ter sedução, não adianta fazer a transmissão se não houver sedução dos alunos”, afirmou Mário. Segundo ele, para que o programa tenha eficácia, será preciso que os familiares fiquem engajados, assistindo às aulas com os alunos e revendo os conteúdos que aprenderam tempos atrás. “Chegou o momento em que os pais deverão ser parceiros das escolas”, concluiu.

De acordo com a secretaria, a Rede Minas está presente em 186 municípios, e a expectativa é que a programação chegue a cerca de 1 milhão alunos da rede. Além disso, segundo a Diretoria Técnica da emissora, existem hoje no Brasil cerca de 20.000.000 de antenas parabólicas que podem receber o sinal da Rede Minas via satélite.

Entrega de apostilas

O Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação em Minas Gerais (Sind-UTE) é contrário a um programa de estudo remoto para a rede estadual de ensino. A coordenadora-geral do sindicato, Denise Romano, afirma que a proposta não atingirá a todos estudantes e poderia aprofundar as diferenças que já existem entre as regiões de Minas.

Outra questão apresentada por Denise foi em relação à entrega de apostilas aos alunos que não têm acesso à internet – de acordo com a secretaria, cada diretor de escola fará o encaminhamento aos alunos que não têm condições de estudar por computador ou celular. Para a líder sindical, a iniciativa irá colaborar para a propagação do novo coronavírus.

“Isso vai gerar aglomeração nas portas das escolas estaduais e vai contribuir para a quebra do isolamento social,ocasionando um aumento da contaminação”, disse Denise.

O Sind-UTE reforça ainda que está em vigor a liminar que impede a secretaria de convocar para o trabalho presencial os servidores da Educação – com exceção dos diretores. 

Como será o programa

A partir de segunda-feira (18), os alunos da rede estadual poderão assistir ao programa “Se Liga na Educação”, que trará aulas gravadas sobre conteúdos dos dois ciclos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. O programa será exibido na Rede Minas, de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 12h30, e poderá ser conferido também pelo site da emissora, pelo Youtube e pelo aplicativo Conexão Escola (disponível inicialmente pela Google Play Store).

Os conteúdos foram distribuídos por área de conhecimento. Na segunda-feira, a temática será linguagens (Português, Inglês, Literatura, Artes e Educação Física). Na terça, Ciências Humanas (História e Geografia).

Matemática é a disciplina da quarta-feira. Quinta será a vez das Ciências da Natureza (Biologia, Química e Física). E na sexta, haverá uma programação específica voltada aos alunos que estão se preparando para o Enem.

Já estão disponíveis no site estudeemcasa.educacao.mg.gov.br apostilas com estudos dirigidos para cada faixa etária. O material conta com conteúdo teórico e atividades para serem feitas ao longo das semanas. Os alunos que não têm acesso à internet devem entrar em contato com a direção da escola onde estudam, pois cada unidade educacional irá administrar a melhor forma de entregar o material impresso àqueles que não puderem estudar pela internet.

Todo o conteúdo exibido na TV e as apostilas também vão ficar disponíveis no aplicativo Conexão Escola, disponível no sistema Android. Em breve, ele também poderá ser adquirido gratuitamente na Apple Store. A navegação no Conexão Escola será paga pelo Estado, não descontando do plano de dados do aluno ou do professor enquanto estiver conectado no aplicativo.

A partir do dia 25, o aplicativo contará com um chat, para permitir que os alunos possam tirar dúvidas com os professores. Eles também poderão mandar perguntas que serão respondidas ao vivo no bloco final do programa “Se Liga na Educação”.

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