Se na ficção, no clássico da literatura de Jorge Amado, Quincas Berro D'água é levado no meio do velório pelos amigos de boemia para uma última noitada, em Barão de Cocais, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi a própria família de Valdívio Soares Pereira, conhecido como "Maré Boa", de 68 anos, quem providenciou que o seu velório fosse dentro do bar que ele manteve por 15 anos no centro do muncípio.

O vídeo da festa fúnebre, ocorrida na madrugada do último domingo (21), se espalhou rapidamente nas redes sociais chamando atenção de pessoas de todo o Brasil.

O Hoje em Dia conversou com o filho do boêmio, Adriano Felipe Pereira, de 48 anos, que conta que o pai faleceu de complicações de diabetes, na tarde de sábado (20). O velório no bar, que leva o nome que acabou virando o apelido de seu dono, teve início à 1h e foi até as 7h de domingo. 

"Ele já tinha falado várias vezes que queria isso. O pedido era: liberar cerveja, cachaça, refrigerante e o café, que era o estoque que tinha. E nem consumimos tudo. Além disso, a música eu deixei liberado, que era a regra do velório do meu pai. A noite toda os amigos dele colocaram as músicas que ele mais gostava. Foi uma homenagem muito boa. Não teve comércio, meu pai nunca visou nada financeiramente, ele vivia um dia atrás do outro, aproveitando ao máximo", contou. 

De acordo com o filho de Maré Boa, o vídeo que viralizou na internet tem como som de fundo a música favorita do morto: "O cheiro dela, não sai da minha cabeça", do rapper Hungria. "Ele velho e gostava de Rap, Hip Hop", lembra Pereira emocionado. Ele conta que não esperava tamanha repercussão, o que vem causando algumas chateações, por conta da opinião de algumas pessoas. "A família e todos os amigos dele sabiam que ele queria isso e, se não fizesse... O velório foi uma representação da vida dele, era ele escrito ali. Qualquer um que teve um mínimo de contato com ele vai falar a mesma coisa", argumenta.  

Confira o vídeo do velório:

Pereira explica que, apesar do clima de festa, é óbvio que todos os amigos e parentes do seu Valdívio sentiram muito a perda. Segundo ele, foi nesta terça-feira (23) que ele sentiu mais a morte do pai. "Para entrar no bar hoje, trazer as coisas dele, foi fora do comum. Eu sofri mais agora do que na hora do velório, que a gente estava bebendo, ouvindo as músicas que ele gostava", detalha o filho. 

Sucessor 

O filho do Maré Boa conta ainda que a tradição do bar de seu pai não morreu junto com ele. Seu filho de 20 anos, neto do idoso que é conhecido como "Marézinho", deverá tocar o negócio da família. O jovem, que já trabalhava com o avô no bar e fazia companhia quando eram dias de pouca clientela, também ajudou a organizar o velório. "Meu filho era o braço direito dele. Depois que passar esse transtorno, que a ficha terminar de cair, ele vai voltar para o bar", garante. 

Ainda conforme Pereira, o bar de seu pai não está na área de risco em caso de rompimento da barragem da Vale na cidade, mas os fatos recentes também afetaram os negócios e as preocupações do Maré Boa. "Ele comentava, pois muitos que frequentavam o bar são moradores da área que pode ser atingida. Muitos dos clientes estão desolados e, a verdade, é que isso afetou todo mundo, abaixou muito o astral da nossa cidade. Porque sempre tem algum conhecido que pode perder tudo, ou um lugar que a gente ia na infância, para pescar, e que a gente já pensa que pode perder", lamentou o filho do boêmio, que sonha agora que esse pesadelo termine e uma nova "maré" de coisas boas volte a atingir Barão de Cocais.

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