Único método capaz de garantir a preservação da fertilidade feminina, o congelamento de óvulos tem sido alternativa para muitas brasileiras que ainda não escolheram ser mães ou que decidiram adiar a maternidade. O assunto voltou à tona após a atriz Paolla Oliveira declarar, recentemente, ter recorrido ao método para “não ficar à mercê do tempo”, já que chegou ao limite da idade considerada favorável para a coleta – 37 anos.

Procedimento simples, realizado em bloco cirúrgico, sob sedação, mas sem contraindicações, a criopreservação é opção, inclusive, para quem passará por tratamento oncológico ou por cirurgias mutiladoras capazes de impactar na saúde de útero e ovário – como as de endometriose severa. A maioria dos casos, no entanto, é formada por mulheres que postergaram a hora de ser mãe ou sem parceiro.

Situações vividas pela empresária Fernanda*, de 37 anos, que, há 2, apostou no método para tentar, no futuro, a concretização do desejo. “Era uma decisão definida: se eu não engravidasse até os 35 iria congelar. Como passei por um divórcio e os planos tiveram que ser adiados, recorri ao procedimento como uma chance a mais”, conta.

Incerto

Alternativa cada vez mais procurada, conforme clínicas especializadas – embora não haja dados oficiais sobre procedimentos feitos no Brasil –, o congelamento, porém, não é garantia de gestação. “Quanto mais velha for a mulher, mais óvulos terá que coletar para alcançar uma gravidez, já que o material pode não fertilizar. Em cada passo pode haver uma perda”, justifica a ginecologista e obstetra Cláudia Navarro, especialista em reprodução assistida. Gametas congelados podem não evoluir e degenerar, explica a médica.

Casos de sucesso, entretanto, não são raros. Tanto a cantora Ivete Sangalo, que já havia tido uma primeira gravidez, quanto a atriz Karina Bacchi, que fertilizou o material congelado com sêmen doado, realizaram o desejo de ser mãe mais tarde graças às células reprodutivas congeladas.

Quanto mais cedo o procedimento for conduzido, melhor, alerta o ginecologista Sandro Sabino, membro da Câmera Técnica de Reprodução Humana do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG). “É preciso lembrar que a qualidade do óvulo refletirá numa menor taxa de embriões viáveis. O fator determinante para o resultado da gestação é a idade em que os óvulos foram preservados. Além disso, quanto mais tardia é a tentativa de gravidez, maiores as chances de alterações uterinas, como miomas e pólipos, e de endometriose”, detalha. 

O congelamento de óvulos pode ser feito até os 44 anos. Já os tratamentos de reprodução assistida, até 49 – conforme orientação de conselhos e sociedades de reprodução humana no Brasil e na Europa. 

* Nome fictício

Congelamento de óvulos

MAIS CEDO – Procedimentos realizados com gametas novos congelados têm mais chances de serem um sucesso, afirma o ginecologista Sandro Sabino

Chances de gravidez são maiores quanto menor for a idade dos óvulos coletados

Assim como numa gestação natural, cujas chances de sucesso são maiores quando mais jovem for a mulher, fertilizações com óvulos congelados também são mais efetivas quando realizadas com gametas novos. A idade “ideal”, segundo especialistas, é até 37 anos – a partir de quando a taxa de células reprodutivas começa a cair mais abruptamente. 

Ginecologista especialista em reprodução assistida, Sandro Sabino reforça que não é só a quantidade do material produzido pelo organismo feminino que diminui ao longo da vida, mas a qualidade. “A recomendação atual para se obter entre 85% e 90% de chance de engravidar é para que se congele entre 20 e 24 óvulos dos 35 aos 40 anos”, afirma. 

A explicação é simples. Em geral, nesta faixa etária, são necessárias pelo menos três tentativas de fertilização in vitro para concretizar uma gestação. Cada uma delas consome cerca de oito óvulos. Antes dos35 anos, por sua vez, quando é comum coletar até 12 óvulos por ciclo de criopreservação, a gestação – entre 90% dos casais que recorrem ao tratamento de reprodução assistida – costuma ser concretizada em até duas tentativas.

Embora seja o único método conhecido de preservação da fertilidade feminina, o congelamento de óvulos, mesmo quando efetivado, pode não ser necessário. Nos casos em que a mulher tiver engravidado naturalmente ou mesmo desistido de gerar um bebê, o material armazenado poderá ser descartado ou doado, explica Nayara Medeiros, farmacêutica, mestre em biologia celular e doutora em ciências da saúde.

“Podem ser eliminados normalmente, como lixo hospitalar, após descon-taminação, ou doados anonimamente”, detalha a professora dos cursos de Enfermagem, Nutrição e Psicologia nas Faculdades Kennedy e Promove, em Belo Horizonte.

6 meses a 1 ano

Mulheres que escolheram ser mães, mas que ainda não conseguiram concretizar o desejo de gerar um bebê devem procurar orientação médica quando as tentativas de concepção natural passarem de seis meses – após 35 anos – ou de um ano – antes desta idade. “Não significa que estejam inférteis, mas é preciso pesquisar, pois o tempo é determinante. Quando a gravidez tem que acontecer de forma espontânea, normalmente ocorre em até 2 anos”, esclarece o ginecologista Sandro Sabino.

Arte congelamento de óvulos

Clique na imagem para salvar ou ampliar

Leia mais:

Novo 'mal do século', Síndrome de Burnout adoece um terço dos brasileiros

Receituário doméstico: comida 'de verdade', feita em casa, ajuda a prevenir e reverter doenças

Pesadelo do sorriso: bruxismo pode gerar trincas e fraturas e levar à perda completa dos dentes