Festas populares da cultura afro-brasileira em Belo Horizonte poderão ser imortalizadas. No próximo mês, as celebrações em homenagem a Preto Velho e Iemanjá serão analisadas pelo Conselho Deliberativo de Patrimônio Cultural da metrópole.

A chancela dá proteção às manifestações públicas dos povos de terreiro, como são chamados os grupos ligados às comunidades de matriz africana. Especialistas também afirmam que o reconhecimento garante a continuidade dos eventos realizados. 

Em agosto, a festa de Iemanjá, na Pampulha, chega à 61ª edição. Participante há mais de dez anos, Makota Kidoiale, como é conhecida a ativista Cássia Cristina da Silva, de 49, considera o momento importante.

“Além de atrações culturais, mais de 30 terreiros se organizam e levam um presente à Iemanjá. Pessoas que não praticam as religiões acabam se interessando”, comenta.

Preto Velho

Já no bairro da Graça, Nordeste da cidade, a Festa de Preto Velho é realizada há 40 anos em datas próximas a 13 de maio, em alusão à Lei Áurea. Ao som dos atabaques, comidas típicas herdadas do povo africano, como feijão tropeiro, são servidas gratuitamente.

Há mais de três décadas, a jornalista Célia Gonçalves, de 56, conhecida como Makota Celinha, comparece à festividade. “Temos tantos feriados e eventos cristãos, e nenhum reconhecimento explícito às outras crenças. O título seria mais que um simbolismo religioso em tempos de intolerância”.

Salvaguarda

O dossiê de candidatura à proteção municipal foi elaborado pelos grupos, conta Ricardo de Moura, responsável pelas festas de Iemanjá e Preto Velho. “Esperamos que o pedido seja aceito pelo Conselho”, destaca ele, que também é representante da Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente.

Para ele, o registro no patrimônio mostra que tanto as celebrações quanto quem participa delas precisam ser respeitados, já que ocorrem episódios de preconceito. 

Diretora de Patrimônio Cultural da capital, Françoise Jean de Oliveira acredita em resultado positivo na reunião em agosto. Com o reconhecimento, o Conselho fará encontros periódicos para receber demandas dos grupos. “Ajudaremos na continuidade desse saber. Afinal, são momentos em que mostram sua existência e o direito à cidade”. 

A manutenção das festas também é destacada pelo professor Leonardo Castriota, professor do Departamento de Análise Crítica Histórica da Arquitetura e do Urbanismo da UFMG. “É uma série de medidas que garante às celebrações um plano de salvaguarda”.

iemanjá
Festa para Iemanjá é realizada na Pampulha

Intolerância

O título de patrimônio vai além da proteção às celebrações religiosas. A expectativa é a de que o reconhecimento coíba atos de intolerância, afirma a cabeleireira Julmara Lima de Souza, de 51 anos.

Com os costumes herdados da família, a mulher conta já ter passado por situações constrangedoras. Mas, ela sempre reage da melhor maneira possível. “Tenho muito orgulho e não me envergonho. Saio ornamentada na rua, com vestido e turbante, e inúmeras vezes me chamaram de macumbeira. Não vou calar minha voz, quebrar minha raiz por conta desses comentários”. 

Julmara diz que a violência também é comum a amigos e familiares que professam a mesma fé. “Nesse sentido, o título colocaria nossas festas e costumes em pauta”, avalia.

Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Erisvaldo Pereira dos Santos lembra alguns casos de vandalismo envolvendo os monumentos de Preto Velho, no bairro da Graça, e de Iemanjá, na Pampulha, nos últimos anos.

“A partir de agora, os intolerantes vão pensar um pouco mais antes de atacar esses símbolos e espaços sagrados”, diz o docente, que é especialista em religiões brasileiras de matrizes africanas.

Além disso, Erisvaldo reforça que, ao se tornarem patrimônio, as festas passam a receber maior atenção do poder público, sobretudo em termos de proteção, guarda e garantia da diversidade religiosa.